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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Não seria grande sinopse escrever apenas as 3 frases que deram início a uma quarta-feira diferente. Três frases em três segundos. Uma conversa a dois que não fez sentido nenhum.

Dois amigos em Lisboa. Uma imperial aqui, um jantar ali e estava na hora de ir até ao carro que ficou estacionado num descampado na periferia da capital. Sim, porque pagar EMEL é um luxo quase tão raro como marisco ao almoço.

Os 7% de bateria foram suficientes para chamar uma boleia paga que nos deixou ao lado do meu carro. Foi aí que a tal conversa aconteceu, mas esta história tem três partes: uma por cada frase. E a primeira foi dita por mim.

“Acho que perdi o telemóvel.” A primeira reação é apalpar-me todo como se me desejasse loucamente, mas o interesse esfumou-se na ausência do telemóvel. Ficou no carro que nos trouxe. E agora? É melhor ligar-me a ver se alguém atende.

“Hello”. Não era a Adele, mas era a voz de alguém que já nos tinha tomado o lugar de uma viagem à boleia. Talvez tenha visto uma luz no carro, talvez tenha sentido o rabo a tremer, até porque o meu telemóvel não faz barulho, mas vibra bem.

Uma conversa curta in English até o telemóvel, nuns loucos 3% de bateria, chegar ao motorista português para combinar o próximo destino do próximo viajante e tentar encontrá-lo a meio caminho. Liguei o carro e acelerei a fundo com a pressa de quem tem a vida toda na mão e agora se sente maneta.

Acelerei a duas mãos na velocidade imensa que a cidade permite. De radar em radar, a única velocidade constante era a do meu coração. Para mim, fui um piloto de Fórmula 1 num Opel Corsa. Mas na prática demorei o mesmo tempo que demoraria num domingo qualquer. O que importa é o entusiasmo da condução. Ou o desespero.

Motorista encontrado. Telemóvel recuperado. E com mais bateria do que quando o vi pela última vez, porque a simpatia de viajante e do motorista estavam carregadas de preocupação. Não sei o nome de nenhum, mas agradeço em todas as línguas.

“Tenho o farolim partido.” O carro não estava mal estacionado, mas há maus condutores em todo o lado. E bons condutores que se distraem também. Pode ter sido apenas um acidente. “Porque é que tens as escovas para cima?” Seria vandalismo ou brincadeira? Tenho teorias, até porque as únicas que levantei foram de carros que conheço quando estou com quem os conduz. Divertido? Pouco. Infantil? Bastante.

Vandalismo faz pouco sentido. Quem é que parte um farolim com tão pouco prejuízo e levanta as escovas? Ou foi ao contrário? “Ah, olha este mal estacionado. Chupa, agora ficas com as escovas em pé”, mas nem um cabelo levantei. “Ah, isto foi infantil, vou partir algo para ser mais rebelde, mas sem ser vândalo.” Esta teoria faz-me sentido.

A outra teoria é um vândalo que se arrepende a meio. Parte o farolim, mas pesa-lhe a consciência e levanta as escovas para parecer que foi só um vândalo em formação. Esta opção também pode começar com alguém que falhou a manobra, acertou no carro e, para despistar, levantou as escovas e disse “a culpa é dos jovens.”

Bem, tudo isto são teorias e nenhuma me interessa, porque baixei as escovas, recuperei o telemóvel e fui de farolim partido aos fados.

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