Romantizei a morte do meu Pai, com ele, quando vive com muito mais saúde que eu. Romantizei a ideia de um funeral que fosse uma festa tão boa como a vida dele. Romantizo a ideia de que vai ficar tudo tranquilamente diferente, mas não vai. Eu sei lá o que na verdade nem quero saber.
Romantizo a morte do meu Pai para disfarçar o pânico que vem com ela, mas romantizo a ideia por ser a ordem natural de uma vida em que a minha mãe é muito mais nova. Romantizo por ser uma de amor. O meu (...)
As maiúsculas na palavra “arte” não têm duplo significado. É apenas uma referência à peça que vi no Teatro Maria Matos, que se escreve assim. Acho eu. Pelo menos no cartaz as letras são todas enormes. E é sobre amizade, das antigas quase sem prazo de validade. Mesmo quando já nem se entende o que as mantém vivas.
O título não tem duplo significado, mas Arte e Amizade são praticamente a mesma coisa. Nascem de uma inspiração, mas só existem com consistência e (...)
Esta crónica é um comboio, apenas porque também chega atrasada esta semana. Aqui e ao contrário de um comboio a sério, só se atrasou para mim no compromisso. À partida, mesmo quem estava à espera dela, não chegou para ter saudades nem atrasou ninguém para nada por ter vindo atrasada.
E por falar em atrasos, é exatamente isso que me acontece sempre que recebo uma mensagem de voz (voice). Sinto o meu entusiasmo em responder a ser esvaziado à velocidade de um colchão de ar (...)
Se esta crónica fosse um filme, começava com algo mais ou menos assim: Do mesmo criador de “Tudo bem, tudo e contigo, também”. Mas não é. É um texto disfarçado de segunda parte de outro.
Esta crónica é sobre que disse a mim mesmo algures em novembro “amanhã escrevo o resto” e esse amanhã só demorou 10 meses a chegar. Pode ser muito, pode ser (...)
Um dia disse que não queria mais amigos, que já tinha tempo a menos para o quanto gosto de cada um. Hoje, vejo ao longe a ignorância gritante dessa minha frase. Acho que acreditava nela. Pelo menos até ser atropelado pelo amor de uma amizade nova.
As amizades não se procuram, acontecem. E mesmo que se procurem, são muito mais aleatórias que premeditadas. É uma espécie de engate inesperado, o oposto do que se quer numa relação amorosa.
Já mudei várias vezes de trabalho, mas (...)
Dizem que o maior orgão do corpo humano é a pele. Não para mim. A minha distração é muito maior e não há protetor solar que me proteja. Afeta-me um pouco a rotina que não tenho. Ou anima. Depende do otimismo com que se vive a distração, e eu vivo-a em exagero.
Tudo o que a distração me faz é uma história para contar, mas o egocentrismo fútil do que hoje escrevo é a distração que me afeta a relação com os outros. Os outros que me surpreendem na vida real e me dizem (...)
Estar apaixonado é incrível. Acho eu, que sinto sentimentos a mais, e mesmo assim guardo-os todos para uma só pessoa. Nem sempre a mesma. Pelo menos por enquanto. A minha paixão é monogâmica, mas na amizade não tenho controlo. Sou poliamoroso.
A paixão é um incêndio florestal, descontrolado, que arrasa tudo o que lhe aparece à frente. Mas em bom. Já o amor é um crescendo de carinho e orgulho, por várias pessoas ao mesmo tempo. Também tem paixão à mistura, mas onde um (...)
Gosto de ver fotos e vídeos de pessoas que andam atrás do mundo como se fosse de um comboio. Gosto de ver, mas só por vontade própria. Enfiarem-me 396 fotos de um fim-de-semana “super giro” continua a ser incómodo. Principalmente quando o destino tem pouco de encantador para me impressionar em fotos. Tal como, sei lá, um qualquer.
Se eu quiser muito ver um sítio vou ao Google. Ou, na loucura, compro uma viagem para lá. Menos para São Miguel (Açores). Só no ano passado vi (...)
Gosto de palavras. De dizer. De escrever. Mas há imagens que valem mais que mil palavras, só não sei quanto vale o meu olhar. E por mais óbvio que seja, como te vejo, só não sabes se não quiseres. Eu bem te olho, mas quase sempre de óculos de sol.
Há quem tenha o coração na boca. O meu salta à vista. Não deixo que o sentimento me fuja por entre os dentes, mas tenho sempre as emoções à flor da íris. Seja no que quero dizer, ou no que ouço, sinto muito não reagir tanto (...)
Acabei agora de ler uma carta antiga. De agosto. De 2023. Antiga na rotina que foi destruída. Antiga porque a vida já não existe para textos em envelopes. Receber uma carta já causa estranheza. “Só me escrevem para pagar alguma coisa.” E até os carteiros se esforçam para serem os melhores amigos das compras online.
Para o possível desespero deles, continuo a enviar cartas. E a recebê-las. Daqui para o Reino Unido e de volta aqui. Chateio carteiros de várias nacionalidades, (...)