Quem coxia vai à janela
Gosto de ir à janela no avião. E não tem nada a ver com a paisagem. É só preguiça, comodismo e muita, muita mesmo, vontade de estar quieto. Não me importo de ir no lugar do meio, nem “à coxia”, mas à janela vejo a miragem de um voo descansado.
O meu corpo é feito para estar sossegado. Só isso já devia ser requisito para ir à janela. Saber estar quieto e ter controlo da bexiga. Eu tenho ambos. Já voei para Salvador (Bahia, Brasil) e voltei, que é coisa para durar 9h. Em ambos, sentei-me antes do avião descolar e só me levantei quando aterrou. E nem assim fui dos primeiros a levantar o rabinho do lugar.
Nem fui à janela, fui à coxia. E não sabia o significado da palavra até hoje. Primeiro, achava que se escrevia cochia. De certa forma, o “x” tira alguma classe à palavra. Mas para andar de avião também já não é preciso classe nenhuma.
Pensei que coxia fosse o lugar que dá mais jeito aos coxos. Como eu. É mesmo à beira do corredor, não é preciso fazer aquele exercício louco de andar de lado para chegar a qualquer outro lugar e também dá para esticar uma perna. Com jeitinho, duas.
Mas não é nada disto. Coxia é corredor. “Andar no corredor” só pode ser da plebe e “passear na coxia” já tem ar de nobreza. Talvez seja assim que se recupera a classe.
Voltando ao lugar, cuja atribuição tende a ser aleatória, talvez fosse interessante preparar umas perguntas, também elas aleatórias, para conhecer o perfil do passageiro e, assim, atribuir-lhe o lugar mais indicado. Que nem sempre é o que a pessoa acha que gosta mais.
Adorar o lugar da janela, mas ser o primeiro a levantar-se quando o avião aterra não faz sentido. Pagar mais 1,50€ pelo bilhete para “compensar a pégada de carbono” também não, mas eu às vezes contribuo. Mesmo que nunca tenha lido nada sobre essa vontade sustentável de uma companhia aérea.
Voltando à rota original, que não deve levantar voo daqui para fora, este tipo de perguntas são muito mais interessantes que aquelas duas. “Transporta materiais perigosos?” Quem não transporta, clica em “não” e faz o check-in. Quem, de facto, traz uma catana na mala de mão, clica em “sim” e não consegue fazer o check-in. Portanto, clica em “não” e avança. Tal como a catana.
“Alguém pode ter interferido com a sua bagagem?” É a pergunta que mais inquieto me deixa. Primeiro, porque sei que tenho de clicar em “não” para poder completar o check-in. Segundo, porque se for para o porão, eu já não sou responsável por interferências. Olhos que não vêem, coração que não sente.
Ou seja, estas perguntas não adiantam nada. Sem clicar nas únicas opções certas, não há bilhete nem lugar para ninguém. Se é para não dar bilhetes, que as perguntas sejam “tem a bexiga pequena”, “não consegue ficar muito tempo no mesmo sítio” ou até mesmo “bate palmas quando o avião aterra”.
Quem responder que sim, não pode entrar no avião por comportamento impróprio. Ou vá, que fiquem no lugar do meio, lá nas últimas filas onde se faz fila para ir à casa de banho.

