O meu Pai
Romantizei a morte do meu Pai, com ele, quando vive com muito mais saúde que eu. Romantizei a ideia de um funeral que fosse uma festa tão boa como a vida dele. Romantizo a ideia de que vai ficar tudo tranquilamente diferente, mas não vai. Eu sei lá o que na verdade nem quero saber.
Romantizo a morte do meu Pai para disfarçar o pânico que vem com ela, mas romantizo a ideia por ser a ordem natural de uma vida em que a minha mãe é muito mais nova. Romantizo por ser uma de amor. O meu amor pelo meu pau.
Ups. Deixei um erro difícil de evitar só para o fazer sorrir agora, apesar de sabermos todos que queria ter escrito Pai, com letra maiúscula, letra grande, nunca tão grande como ele.
Não romantizo a morte, que não quero ver. Romantizo a ideia de lhe fazer uma festa, uma homenagem póstuma com discursos carregados de elogios e histórias divertidas, escritas ou improvisadas. Mas é uma ideia demasiado boa para ficar guardada. Que justiça seria esta de ser o meu Pai o único a não saber a festa que quero fazer para esconder um vazio que me pode impedir de a fazer?
Não vou partilhar a ideia. Ele sabe qual é. Eu também. E rimos juntos. A minha mãe não acha piada, mas a festa também não é para ela. Mas espero que ela vá, mesmo sabendo que não está a gostar nada de ler isto. Não te preocupes, Mãe, a partir de agora vou escrever a homenagem.
Ninguém mantém tantas pessoas vivas como o meu Pai. Que conta histórias e histórias sem fim, sem se cansar, sempre com o entusiasmo de quem a conta pela primeira vez. A vida já lhe levou a maior parte do elenco, mas ninguém diria. Até para mim que já sei uma boa parte delas. Sei quase sempre o final, mas acabo sempre surpreendido.
Contar histórias é um talento e saber que são reais é estar a vê-lo pintar com todas as cores um livro que quer fugir a preto e branco. E nem isso o faz parar. Se é a memória que mantém as pessoas vivas, o meu Pai é médico e eu não sabia.
Parece que não sorri, mas alegra todos os sítios onde está. Parece que está sempre sério, mas derrete-me com mil e um gestos amorosos, mesmo quando não são para mim. Sabe ser discreto, mas nunca passa despercebido. Parece ser um homem de poucas palavras, mas tem sempre as palavras certas.
Tais como as que me repetiu vezes sem fim, vezes sem conta, até eu próprio me tornar dono delas. Palavras que sempre foram apoio e carinho, abraço e abrigo. Palavras que me permitiram fazer tudo sem arriscar nada. E mesmo que seja uma frase feita de um qualquer cliché, para mim será sempre só dele: “o não está sempre certo.”
Sei tantas letras. Sei tantas palavras. Sei que as posso escrever todas sabendo que nunca nenhuma delas estará à altura de descrever quem é o meu Pai. Para mim e para todos. Dizer “amo-te” não me é fácil, mas encontrei uma forma esquisita de o fazer.

