O estigma de uma bufa
Fala-se pouco de um tema tão silencioso. Sobre a inconveniência do que fazer quando uma se faz à pista. Evitar é opção, mas nem sempre está disponível. Aliás, quase nunca. Evitar pode aumentar o risco à próxima que se aproxime. (É provável que esgote o meu stock de metáforas nesta crónica.)
Seja em família ou no escritório, se há bufa a caminho, também o dono dela se deve pôr a andar para um lugar seguro. Finge uma ida à casa de banho ou vai à rua. Se for tímido, finge uma chamada para “não parecer mal”. Até aqui, tudo bem, mas e se forem várias?
Levantar várias vezes para ir à casa de banho gera preocupação. Será incontinência, será diarreia? Será tema de discussão assim que voltar? Claro. A preocupação patente no “está tudo bem?” depois de se ir à casa de banho 3 vezes em 3 minutos, torna-se difícil de gerir.
Nenhuma das opções é digna. É humana, mas não é digna. Enquanto o “tenho a bexiga pequena” ou o “algo me caiu mal” são perfeitamente aceitáveis para mascarar chichi e cócó, não há máscara para a bufa. Qualquer tentativa será uma mentira. E é difícil gerir o julgamento de se dizer livremente que “fui só dar uma bufa”.
Enquanto as outras duas são feitas numa casa de banho, a bufa pode ser dada, ou oferecida em qualquer lado. Mas visto de longe, é esquisito. É uma pessoa que se levanta de onde está para se afastar e escolher um sítio quase deserto. E quando há espaço para sonhar, até a cara se contorce de prazer. Mas isto só se faz no conforto da solidão momentânea.
Com amigos e família, até se pode abrir o coração (só o coração) para dizer o que se passa. Mas e no trabalho? No escritório? O que se pode fazer? Ir múltiplas vezes à casa de banho também pode ser visto como preguiça de quem tudo faz menos trabalhar.
A opção mais desafiante é deixá-la ir e esperar pela reação. Toda a gente sabe que o primeiro a falar é o mais suspeito e, por medo de repercussões, ninguém fala. Muito menos o prevaricador.
Podia dizer que isto não foi inspirado em acontecimentos reais. Seria o mesmo que quem bufa ser o primeiro a queixar-se. Em qualquer um dos casos, vai cheirar mal. Metafórica ou literalmente. Neste caso, fui egoísta e não partilhei com ninguém. Todos os cenários foram vividos na minha imaginação, caso não me soubesse conter.
Bem, esta crónica parece uma bufa. Parecia divertida, mas saiu furada. Nem metáforas, nem soluções, nem nada. Na minha cabeça isto tinha piada. Escrita já não. Agora, tal como as bufas, não se pode parar a meio. É melhor deixar ir.
Enquanto o peido tem um teor didático e divertido, tanto em família como nalgumas amizades, a bufa é sempre desaconselhada. O peido diverte com o som e aleija com o cheiro. E a pobre bufa, quando tenta ser divertida, dá merda. Literalmente.

