Nem tudo é doença
Podia ser o caso de mais uma expressão popular que envelheceu mal, mas não. Aqui, quem evoluiu mal fomos nós, pessoas demasiado humanas e vulneráveis, sem espaço para assumir culpas de nada, prontas a culpar tudo e todos, até nas nas coisas mais mundanas possíveis. Já não há enganos nem distrações, só doenças.
A dislexia, a ansiedade, o défice de atenção e a transtorno obsessivo-compulsivo nunca tiveram tantos fãs. Nem tantos diagnósticos. E ainda bem. São doenças doentes, infetadas pelo hype e pelo mainstream que as vulgariza. Ou seja, estão tão na berra que todos querem um bocadinho.
A dislexia é um problema real, eu sei, mas quando alguém se engana a escrever uma “palarva” não quer dizer que seja. Estranhamente, é mais fácil dizer “sou um bocadinho disléxico” que apenas “enganei-me”. Afinal, errar ainda é humano?
Levo as doenças demasiado a sério para não querer um bocadinho de cada uma. Já tenho suficientes, só não tenho nenhuma destas. Parece que somos todos cadernetas sedentas de mais um cromo, mas cromos somos nós por querer qualquer doença.
Ansiedade é uma palavra que só de escrever e falar me dá medo, porque nem consigo imaginar o que deve ser sobreviver com ela. Respeito-a demasiado, a palavra e a doença, Nem consigo escrever um exemplo que não seja uma perfeita desvalorização do que é ter ansiedade.
Já sobre as duas doenças que se seguem estou muito mais à vontade. Aliás, as duas estão tão presentes nas conversas do dia-a-dia que até os acrónimos em inglês já fazem parte do dicionário. ADHD é TDAH, OCD é TOC e se calhar fazíamos um STOP a esta banalização.
“Agora todos têm défice de atenção” ouve-se tanto como “tenho um bocadinho de (inserir acrónimo mais cool)” e, na verdade, até pode ser verdade. E se calhar é mesmo, mas não acredito em todos os que dizem que têm, só porque são um bocadinho distraídos.
Quem quiser gritar aos sete ventos que tem défice, que me traga uma declaração. Somos ou não somos o país das burocracias? Eu quero esta. Só para não se descredibilizar as doenças que não se conhecem tão bem. Se nenhum careca diz “tenho um bocadinho de cancro” porque é que alguém quer ter um bocadinho de outra doença qualquer?
E é de bocadinho em bocadinho que quem organiza as camisolas por cores tem um bocadinho de OCD. Ou TOC. Neste caso, ambos os acrónimos são cool para saírem da boca para fora com estilo. Ser organizado é uma coisa, sofrer de um transtorno obsessivo-compulsivo é muito diferente. E as diferenças começam no verbo. As doenças não se “têm”. As doenças sofrem-se e superam-se. Quanto muito, é a doença que nos tem a nós.
Há sempre uma doença na ponta da língua e nenhuma se passa num beijo. Se assim fosse, talvez as quisesse todas.