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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Dedicar uma crónica, mais uma, ao que se faz na casa de banho, especialmente enquanto a escrevo no domingo de Páscoa, parece-me, no mínimo, digno e requintado. Contudo, com as doses de doces, amêndoas e ovos de chocolate que comi, a dignidade vai perder-se muito em breve.

Enquanto espero, mas não desespero, que a barriga me dê horas, penso sobre o quanto a poltrona me aproximou do que sou hoje. Sou aquele que vai com tempo para desperdiçar e com muita vontade de ler. É quase certo que, em alguns anos, foi sentado com as calças nos tornozelos que mais enriqueci o meu vocabulário.

Em todas as casas que vivi, que não foram muitas, nem poucas, a única literatura à mão eram pacotes de toalhitas e papel higiénico, shampoos e géis de banho por usar. Tudo por abrir, como se precisasse de ler os rótulos para saber como os esfregar em mim. Já lavei o peito com shampoo para cabelos secos. Não por analfabetismo, só por excesso de penugem.

Em momentos de aperto, figurativa e literalmente, até as pastas de dentes serviam para me entreter. Não me lembro nada do que li nas minhas casas de banho, mas recordo com saudade tudo o que li em casa de banho alheia. Em casas familiares, para o coração e para o rabo que já conhecia a sanita, lembro-me do muito que li.

Sempre estranhei, tanto quanto agradecia, ver ali revistas e livros. As páginas não ficavam moles com a humidade de um banho? Nunca uma lavagem de dentes acabou a manchar uma capa? Era uma preocupação minha, mesmo estando lá com outras intenções.

Li Marias e Marianas, Nova Gente e Selecções. Li banda desenhada e talvez tenha borbulhas que nunca viram o sol por me esquecer do tempo que lá ficava. Quase sempre a ler. Estranhamente confortável, até a perna ficar dormente. Curiosamente, nunca ficaram as duas, mas deve ser uma questão de tempo.

Hoje, na minha casa, contínuo preocupado com a humidade que estraga papel e não guardo lá qualquer literatura. Mas nunca entro sem. Os rótulos de tudo estão longe do meu alcance, mas o livro debaixo do braço nunca me deixa sozinho.

É dos momentos mais saudáveis que tenho na vida. Cedo à tentação de levar o telemóvel na mão, porque isso já me distrai o dia todo. Faço da poltrona o meu espaço de meditação, onde há wi-fi e pouca vontade de me ligar. E sabendo que o ecrã do telemóvel é mais sujo que o tampo da sanita, acho nojento estar com ele entre as pernas.

Para mim, que gosto muito de ler, não sei ler em casa sem ser no sítio do costume. Leio em cafés e comboios ou esplanadas barulhentas à beira-mar. Não me concentro no sofá nem na cama, pelo menos para ler, mas até me esqueço do tempo quando estou de livro entrepernas ao léu.

Não faço ideia do que será feito de mim com prisão de ventre, mas na falta de melhor ideia, fica uma crónica de merda.

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