Interesso-me pelo desinteressante, e é isso que mais me interessa. Fascino-me pelo que não compreendo e este é só mais um desses casos: interruptores multifunções, aqueles dois em um que acendem a luz e ligam ventoinha num só movimento. Porquê?
Casas de banho com apenas um interruptor já são uma miragem. Há sempre um para a luz e outro para a ventoinha. Às vezes são dois, um para a luz e outro que dá uma luz diferente com barulhos de ventoinha. Também há com três, mas isso não é relevante.
No hotel onde estive, existia apenas um interruptor que, em simultâneo, acendia a luz e ligava a ventoinha. Um interruptor que me interrompia até os pensamentos. Ainda assim, tive uma avalanche deles.
Primeiro, a maior parte das vezes que vou à casa de banho, vou fazer coisas que não cheiram mal nem deixam humidade no tecto. Ou seja, não precisam de ventoinha. Mesmo que estivesse cheio de calor, aquele vento não ajuda. E o barulho chateia mais que a temperatura.
É aborrecido ficar sem a opção de ligar a ventoinha apenas quando estamos longe. A não ser que faça tudo às escuras. Podia ser uma brincadeira gira, mas não na minha casa de banho.
Pode-se pensar que, dormindo sozinho, não há problema. Mas a casa de banho é um ótimo lugar para procurar silêncio, paz interior, ideias novas. Naquela, só traumas ao ritmo do barulho mecânico, consistente, quase igual a um coxo de saltos altos.
Ainda num mundo em que a casa de banho é só minha, caso queira ir a meio da noite, não só é difícil lidar com a luz bruta no meio da escuridão como também o barulho pode roubar o sono com que lá fui parar.
E se a casa de banho for partilhada, a quantidade de chatices só duplica. Ainda a meio da noite, mesmo que uma pessoa se levante de pantufas e deslize pelo quarto para evitar acordar a outra pessoa, tudo morre na ventoinha automática.
Já se for durante o dia, sempre que for à casa de banho, a outra pessoa vai pensar que eu estou a fazer um cocó mal cheiroso. Por um lado, pode parecer atencioso querer sempre a casa de banho com bom ar. Por outro, que raio de intestino é que produz tanto em tão pouco tempo. Claramente, um caminho sem saída. Ou melhor, com saída a mais.
Enquanto procuro explicações, especialmente agora que já estou fora desse espaço, penso no impacto ambiental de reduzir drasticamente os interruptores. Mas quando o hotel é mais pequeno que o meu prédio, não faz assim tanto sentido. Todo eu sou sustentabilidade, mas o barulho constante e chato faz-me esquecer tudo o que Verdocas me ensinou.
Talvez a única coisa útil da ventoinha seja o ritmo a que sopra. Era uma excelente cadência para lavar os dentes. Pena ter-me esquecido da escova de bambu.

