É tudo uma questão de língua
Há um dilema recorrente que quase toda a gente responde em segundos. E eu também. Preferias conseguir falar com animais ou falar todas as línguas do mundo? Normalmente, sou a minoria que quer ser poliglota. Até agora.
A minha resposta tem apenas uma justificação: e se os animais forem todos estúpidos? Não no sentido de serem idiotas, mas por só saberem estupidamente 37 palavras que repetem à exaustão. Todos os dias, todos os minutos.
Como português, que aprendeu inglês e ignorou francês, acho que também falo brasileiro e espanhol. São as ilusões em que vivo, tão grandes como a minha falta de articulação que é tão maior em brasileiro que em espanhol. Tudo teorias que morrem em 5 minutos de conversa.
Sempre que vou a Espanha sinto-me a um passo de ficar nativo. Até porque entendo melhor os nuestros hermanos que boa parte do sotaque algarvio. Ou melhor, de Olhão.
Isto é o que eu achava até ter de falar mais de cinco minutos com alguém. Pedir café e cañas, ou até tapas, é fácil. Manter uma conversa é outra coisa. E foram nesses minutos de boleia a falar sobre coisas triviais que o meu espanhol se esgotou. Não tive língua para tanto. Espero que seja só aqui.
Não entender nem saber falar qualquer outra língua como falo português reforça a beleza de que é aprender essa nova língua. Fiquei mais inclinado a querer falar com animais só para ter o desafio de aprender a falar mais uma língua por mérito e não por obra e graça de espírito santo. E felizmente, não do banco.
Contudo, tudo muda quando vou à Suiça, à parte alemã, onde já fui tanta vezes como a Espanha. Tudo muda no sentido em que é igualmente belo fazer parte de uma conversa onde não se percebe nada. Em especial, quando um polícia me aborda para resolver temas.
Eu, um bilhete de futebol e um erro de sistema. A leitura do bilhete deu erro duas vezes e o polícia disse-me coisas. Várias. Não percebi nenhuma e chamei apoio do meu primo nativo na língua que eu falo com a boca cheia de batatas quentes que não consigo mastigar.
Durante cinco minutos, os mesmos em que descobri as espanholadas que não sei, fiquei a nadar na maionese da imaginação sobre o que seria a conversa. Vou preso? O bilhete é falso? O que era o erro? Será que estão só a falar de onde se bebe a melhor cerveja dentro do estádio? Curiosamente, todas as respostas me interessavam, mas podiam começar com a parte da cerveja. Estava com sede. De cerveja e conhecimento.
Descobrir até onde chega a minha língua é giro. Não entender nada de língua também. Vou continuar mais interessado na arte de dominar a língua humana, nos idiomas e não só. Vou deixar os animais para depois. Soa a fetiche.

