Como apanhar um comboio em Itália #02
Firenze Rifredi, um nome bonito que pode parecer tudo. Mas é só uma estação suburbana de arquitetura funcional. Uma espécie de Monte Abraão em tons de azul, onde dois primos se preparavam agora para descobrir como podiam chegar a Bolonha.
Nada me fez sentir tão em casa como ver as bilheteiras sem ninguém. Deve ser um traço deste nosso estilo mediterrânico. Sobravam as bilheteiras “desenmerda-te” - em que somos verdadeiramente os únicos responsáveis pelo nosso futuro.
Futuro esse que se chamava Bologna Centrale, com uma paragem e transbordo em Prato Centrale. Os nomes parecem bonitos só por serem italianos, porque estas estações são tão bonitas como uma travessa de inox - tem o seu encanto, mas na luz certa até dói nos olhos.
De bilhete na mão, subimos à plataforma que nos informou de que só faltavam 55 minutos para o comboio. Que chegou. Na linha certa. À hora errada. Mas desde que os atrasos não me façam descer escadas a correr, tudo certo.
Por momentos, pensámos que seria uma viagem bonita pelos campos verdes e pelas montanhas não tão altas que os posters de Itália apresentam. Mas não. A viagem era a experiência menos turística possível, com vilas e aldeias industriais, casas no meio do nada - essas sim, bonitas - mas muito pouco encanto no geral.
A minha prima estava preocupada por termos apanhado um comboio atrasado, mas confiante porque “o próximo comboio espera por nós”. Nunca na vida eu pensei que um comboio me pudesse dar esse prazer, mas confiei. “Quando vou para o Alentejo acontece sempre, um comboio espera pelo outro.” - disse ela.
Até que chegámos a Prato Centrale mais centrados que nunca, com paciência de santo e mindfulness em dia. De shakras alinhados, nós e o comboio, descobrimos que , ao contrário dos outros, este tinha vontade própria e vivia pontual.. Tanto que já tinha ido embora.
Depois de rir um bocadinho, fomos à bilheteira perguntar, só por descargo de consciência, se podíamos continuar com o mesmo bilhete. Podíamos. E, por sorte, só faltavam 55 minutos para o próximo comboio. “Mais vale irmos beber qualquer coisa, já merecemos.” Só que Prato Centrale é uma espécie de Mira-Sintra Meleças, onde nem os pombos estacionam.
(Nota: Eu sei, esta crónica contribui para a gentrificação por estar muito focada na Linha de Sintra. Mas tenho pouco mundo no que a estações de comboio diz respeito.)
O tal comboio chegou, depois de muitas fotos e momentos a rir protagonizados por duas pessoas emocionalmente desequilibradas com a experiência, mas felizes. Sempre.
Conclusão: para não gastar 30€ numa viagem de 1h30 num comboio sem paragens, pagámos, no total, 25€ por 5h45 de momentos a dois em três comboios. Tão barato como um Pack da Odisseias.

