Como apanhar um comboio em Itália #01
Eu dou-me bem com as horas. Mesmo as que passam a voar. Mesmo as que custam a passar. Já com horários, não me entendo. É por isso que quando vou viajar, existe uma preocupação à minha volta sobre se volto. Dizer que perdi qualquer coisa nunca surpreendeu ninguém. Fosse um lápis na escola ou um voo para qualquer lado.
Voos ainda não perdi, por sorte. E foi num dos últimos que consegui, com a ajuda da minha prima que é igual a mim, transformar uma viagem de 1h30 em quase 6h. Podem dizer que somos distraídos, eu prefiro talentosos. Mas um daqueles talentos esquisitos que fazem furor em programas de televisão.
Depois de Bolonha - Florença ter sido tão tranquilo, talvez o regresso precisasse de animação. Por isso, foi de manhã que procurei pelo bilhete de comboio mais barato, mas também que fosse direto, sem transtorno para o nosso transbordo - só porque uma vez nos distraímos com a troca de autocarro e ficámos na Gare de Évora durante 5h30. Évora é linda, só não recomendo essa paragem.
Bilhetes comprados, dinheiro poupado, e lá vamos nós com 1h de antecedência para a estação de onde tínhamos vindo - Firenze Santa Maria Novella. À chegada, vimos um exagero de linhas e horários, vimos comboios para todos os destinos menos o nosso. Foi aí que a minha prima leu o bilhete que eu tinha comprado.
Firenze - Bologne estava certo, mas não imaginei que existissem mais 3 estações a começar por Firenze. Felizmente, o meu erro levou-nos a Firenze Rifredi. Foi dos melhores erros que já fiz, porque não precisávamos de sair da estação para lá chegar. Era só apanhar outro comboio para a outra estação sem outras. E ainda tínhamos muito tempo até ao outro comboio.
Chegámos a Firenze Rifredi, uma paragem suburbana que nada tinha a ver com a imponência, beleza e versatilidade da Firenze Santa Maria Novella. Vimos que o “nosso” comboio era exatamente na mesma linha onde parámos. Que sorte, achei eu, enquanto dizia à minha prima “isto foi tudo para vermos um bocadinho da verdadeira Florença.”
Nesta estação muito pouco internacional, só se falava italiano. Tanto as pessoas como os altifalantes. E foi por aí que eu entendi que o comboio, intercidades, estava com um atraso de 10 minutos. Continuámos a ler e a esperar, impávidos e serenos, até que aparece, noutra linha, um comboio azul, intercidades.
Eu digo “olha, deve ser um daqueles” e poucos segundos depois ouve-se nos altifalantes, em inglês pela primeira vez, que o comboio atrasado ia chegar a outra linha. Pegámos nas coisas, descemos e subimos escadas até uma plataforma completamente vazia. O tal comboio azul era o nosso.
Se avisaram em italiano, eu não entendi. Mas os ecrãs da estação também não porque nunca atualizaram essa informação. Parecia que aquela mensagem em inglês tinha sido criada só para nós, mas como demoraram tanto a traduzir, o comboio foi andando. E assim começava mais uma odisseia, mais ou menos aguardada por quem nos ama.
(contínua na próxima segunda, dia 14)

