Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Dizem que o maior orgão do corpo humano é a pele. Não para mim. A minha distração é muito maior e não há protetor solar que me proteja. Afeta-me um pouco a rotina que não tenho. Ou anima. Depende do otimismo com que se vive a distração, e eu vivo-a em exagero.

Tudo o que a distração me faz é uma história para contar, mas o egocentrismo fútil do que hoje escrevo é a distração que me afeta a relação com os outros. Os outros que me surpreendem na vida real e me dizem olá. Seja de boca ou de braço no ar.

Tenho cara de quem sabe o que não mostra em todos os encontros espontâneos que acontecem. E os únicos que me aborrecem são, de facto, quando reconheço as pessoas com quem estou a falar.

Não sou figura pública, mas faço muitas figuras em público. Há muita gente que sabe quem sou por ser filho da mãe, da minha, e outros tantos que me conhecem por mim. E, de vez em quando, há coincidências e encontros surpresa, sempre para ambos, mas muito mais para mim que demoro a atribuir nomes a caras. De amigos próximos ou colegas distantes.

“Olá. Por aqui. Tudo bem? Como estás?” Estou confuso. Consigo ver na cara da pessoa que me fala que ela acha que tenho cara de quem não a reconheceu. MAS RECONHECI. Quase sempre, vá. E esqueço-me de responder com o nome para garantir que a coincidência é feliz para os dois.

“Estou ótimo, e tu, Inês, como estás?” De facto, eu costumo estar ótimo, mas não a chamei Inês. Não a chamei nada. E saio daquela conversa de ocasião com a certeza de que a Inês acha que não a conheci.

Também saio com vontade de mandar mensagem (porque se conheço, tenho o número) para dizer “Gostei muito de te ver” como quem diz “Não fiques triste (ou outra emoção) se parecer que não te conheci. A cara é de parvo, não de estranheza.”

O que acontece, em microssegundos, é simples. Estou tão feliz por encontrar, reconhecer a Inês, que não me concentro em mais nada. É o momento em que os meus neurónios fecham para uma pequena festa. Pequena, mas grande o suficiente para só voltarem ao ativo quando a conversa acabar.

Tem-me acontecido bastante e sinto-me estúpido. Se isto interessa a alguém? Só a quem me vê e se sente esquecida. Não é um pedido de desculpas, mas podia ser. Não interessa a mais ninguém que não eu, mas escrever é uma terapia barata que, de vez em quando, funciona comigo.

É mais fácil quando é só um olá de braço. Posso acenar também, pensar uns segundos, e voltar para trás para me concentrar em reagir como quero à coincidência que se apresenta.  Tal como também já aconteceu. É que eu fico tão feliz por dentro, que bloqueio por fora.

P.S. Inês é um nome fictício, mas também é real.

4 comentários

Comentar post