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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Um dia disse que não queria mais amigos, que já tinha tempo a menos para o quanto gosto de cada um. Hoje, vejo ao longe a ignorância gritante dessa minha frase. Acho que acreditava nela. Pelo menos até ser atropelado pelo amor de uma amizade nova.

As amizades não se procuram, acontecem. E mesmo que se procurem, são muito mais aleatórias que premeditadas. É uma espécie de engate inesperado, o oposto do que se quer numa relação amorosa.

Já mudei várias vezes de trabalho, mas nunca mudei para fazer amigos, fui fazendo pelo caminho e hoje não me imagino sem cada um deles. Também já fiquei tempo a mais em alguns sítios por não me querer ver longe dessas amizades. É o momento em que se troca de trabalho que se descobre do que é feita esta amizade: um feliz acaso laboral ou um abraço para a vida toda.

É este um dos motivos que me faz gostar tanto de trabalhar num regime híbrido, um bocadinho no escritório, um bocadinho em casa. É claro que também se fazem amizades em trabalhos 100% remotos, amizades que se desenvolvem por mensagem e videochamada. Ou pela força do ódio comum a um chefe.

Deixar um trabalho é tanto mais difícil quanto se goste das pessoas que lá estão connosco. Falo por mim, claro, que tenho o privilégio de trabalhar no que gosto e não de ser pressionado por outros motivos para procurar coisas novas. Ainda assim, não me canso de procurar. Gosto do estímulo da novidade. De não saber de onde vem a próxima amizade.

Ainda não fiz uma amizade puramente remota. Ou seja, uma amizade que se sinta como tal, exclusivamente através de um ecrã. Na vida adulta ainda não, enquanto adolescente fiz amizades no Perú. Acho eu. Se calhar, era um homem com más intenções. Nunca saberemos.

A amizade nasce espontânea até se esquecer de quando começou. Sei que começaram naquele trabalho, mas não o momento em que descobri que tinha mais alguém para guardar num coração já apertado pela saudade.

Tenho apenas uma amizade com data marcada. Uma colega, hoje amiga, com quem trabalhei vários meses sem nunca nos vermos e, na primeira conversa frente a frente, trabalhar foi raridade num dia que parecia curto para tanta intimidade. Não sei o que seria de nós se ficássemos sempre remotos, mas já não imagino a minha vida sem qualquer uma destas heranças profissionais.

Trabalhar pode nem sempre ser um prazer, mas fazer e ter amizades no trabalho é motivação suficiente para me fazer ir. E, para mim, que estou habituado a sair e a trazer para a minha vida o amor que não cabe num escritório, foi muito difícil ver sair quem quero mais perto, mais tempo. Para sempre.

Tenho 100% de certeza que não consigo ter tanto tempo quanto queria para estar com quem mais gosto. E tenho 100% de certeza que não querer mais amizades é 100% errado.