A nadar pela estrada fora
“Correr é parvo”, é uma frase que já me saiu muitas vezes da boca, e dos dedos. É uma frase que defendo sem razão aparente a não ser eu próprio não gostar. Há tanta forma mais engraçada de fazer exercício do que correr atrás do nada com o objetivo de voltar ao ponto onde se começou. Contudo, o meu desporto preferido é nadar. Numa piscina. Coerência nunca foi o meu forte.
Na última vez que me atirei à piscina, tive tempo para afogar as mágoas deste tema enquanto o meu cérebro ainda não estava exclusivamente preocupado em manter-me vivo.
Dizer que gosto de nadar é o que mais depressa me tira o tapete sobre a estupidez de correr. Porque nadar é correr e correr é nadar. É tudo uma questão de paisagem, visto que os azulejos da piscina são sempre os mesmos, desde que eu não troque de sítio. Falta-lhes arte e cor. Até podiam dar um novo alento durante as infinitas piscinas que lá faço durante cada treino.
Infinitas é só uma força de expressão altamente motivadora porque fala sobre a minha capacidade também infinita para manter o ritmo alto e duradouro. Infelizmente, nenhuma das coisas é infinita e teria até vergonha de falar da minha capacidade física neste momento. Correr é que é estúpido, lembram-se?
Antes de mais, eu conheço pessoas que correm, de quem eu gosto muito, não porque correm mas porque são mesmo boas pessoas. Tão boas que nem me prendo nesse facto. Sim, digo alarvidades mas no fundo tenho bom coração. Eu aplaudo todos os que decidem ir correr, pela coragem em procurar o limite do corpo, muitas vezes ao lado de carros em andamento e com uma boa probabilidade de acabarem com os joelhos limados pelo alcatrão.
Seja a casa ou o carro, o ponto de partida de um corredor deve ser também e sempre o ponto de chegada. E se não for é só mau planeamento. A única coisa que me agrada na ideia de correr é a paisagem. Mas para ver paisagem, é melhor estar sentado para apreciar com calma. Eu pergunto-me “mas correr com que objetivo, porquê, atrás de quem, se nem um avião que preciso de apanhar me convence a apressar o passo?
E na verdade, o que é nadar se não correr dentro de água? Enquanto a correr vamos atrás de um tempo, e de correr uns tantos quilómetros, nadar é fazer o mesmo, mas num curto espaço de 25 metros, tal como um peixinho dourado. A proporção deve ser a mesma.
Nadar é só uma forma de equilibrar o sofrimento que quase todos nós já causámos a um peixe que quisemos ter em casa. Preso dentro de um pequeno aquário que, na melhor das hipóteses, tinha pedras e uma alga para “enganar o peixe a pensar que estava no mar”. O peixe não tinha saída que não fosse nadar às voltas, para trás e para a frente. E quando eu vou nadar, não sou também só um peixe dourado preso num pequeno espaço aquático?
Correr pode não ser parvo, mas eu sou, e a única diferença entre mim e um peixe no aquário, é que a mim ninguém me atira comida. E que bem que me sabia.

