A minha avó sempre me disse
“Não assobies à noite. Isso chama as cobras.” E é por isso que eu não o faço. Não quero que as cobras achem que eu as chamo, nem que venham atrás de mim. Também não quero saber se é só mito ou verdade, mas lembro-me sempre dela quando assobio e páro no segundo a seguir. Mesmo que seja de dia.
Talvez a minha avó tenha inventado isto só por não gostar do barulho. Se foi esta razão, respeito para toda a vida. Inventar mitos, destes inofensivas, pode ser o meu próximo hobbie favorito.
A minha avó sempre me disse quando é que os dias ficavam maiores e quando ficavam mais curtos. Não me dizia que a hora ía para a frente ou para trás, mas sempre me disse quando os dias começavam a crescer. Era a forma de me dizer que tinha mais tempo para viver cada dia.
Também sempre me disse qual era o dia mais pequeno e a noite mais longa do ano. Nunca me cobrou tempo, mas disse-me sempre como aproveitá-lo. Os dias a crescer de sol para estar na rua e as noites longas para conversar à lareira. Todas as palavras foram um ato de amor. Até quando me dizia para ficar mais tempo a brincar perdido na aldeia.
A minha avó sempre me disse que podia escolher o almoço depois das manhãs em que íamos à vila fazer as compras da semana. Já sou tão adulto e só hoje descobri que continuo a fazer isto. A recompensa de ir ao supermercado é trazer amor em forma de jantar.
Quase sempre espetadas, mas muitas vezes pizzas, que dividia comigo. Não faziam bem a nenhuma das muitas doenças que tinha, mas também não a impedia de partilhar esse amor comigo. E mesmo que já não coma espetadas, eu, continuo a trazer quase sempre pizza. Pensava que era só guloso, mas afinal são só saudades.
A minha avó sempre me disse para não pôr tanto açúcar no chá e hoje sou viciado em chá sem açúcar. Aquele chá que bebíamos todas as noites, até no verão, para pôr a conversa em dia. O prazer de uma conversa profunda de caneca na mão começou aí, quando eu ainda não sabia o que era profundidade, mas gostava daquele momento só nosso.
Hoje, as canecas nem sempre são de chá, mas o gosto pelas conversas de fundo até ao fundo do copo continua. As rotinas que não compreendia são agora as minhas. Só não congelo tanto pão, mas como-o como se fosse essencial à vida. E é. À minha.
A minha avó sempre me disse asneiras disfarçadas e eu sempre me descosi todo com um "cosa-se". Sempre me disse que gostava de ler palavras bonitas e, hoje, estas são para ela.
Tudo o que a minha avó me disse, até em silêncio, não cabe só numa crónica. Não cabe em lado nenhum. A minha avó sempre me disse muitas coisas, só não me disse que se ia embora.

