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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

O título é um cliché grande para quem escreve, mas aplica-se a tudo na vida. Decidir os almoços e jantares da semana também é, do seu jeito, uma folha em branco. Não faltam receitas e possibilidades, o difícil é escolher.

Ou seja, eu acho que o problema nunca é a “folha em branco”, mas sim ter sempre a folha demasiado cheia. Nem um bebé que acaba de nascer é “uma folha em branco”. Somos todos folhas riscadas. Umas mais que outras. Cheias de pensamentos ou opções alimentares.

Na prática, uma folha em branco é assustador. Mas não é o ponto inicial de nada. É o final apocalíptico. Por exemplo, eu hoje ainda não tinha decidido o tema desta crónica, mas tinha ideias perdidas. A folha estava em branco porque nenhuma delas era boa.

O mesmo acontece na cozinha. Pode existir comida no frigorifico, no congelador e temperos na despensa. Pode até ser dia de ir às compras. A folha está cheia de opções para deixar ao lume, mas o que é que vai mesmo entrar no tacho? Afinal, só nos apetece uma torrada com manteiga, e amanhã logo se vê. A folha em branco não é só o rolo de cozinha a chegar ao fim, é a falta de decisão sobre o que queremos fazer.

Ver a folha em branco é quase o mesmo que não fazer nada. Há quem fale dessa arte, da qual sou grande fã, mas se quisermos ser literais, é impossível. “Não fazer nada” é só uma expressão engraçada para descansar de uma chatice no futuro. Seja uma reunião de trabalho ou um fogão avariado.

Portanto, sempre que alguém diz “não estou a fazer nada”, está na prática a fazer alguma coisa. Fugazes são os momentos em que, a olhar para o horizonte, nos perdemos inconscientemente num pensamento até alguém nos chamar de volta à terra com um “estavas a olhar para onde?”, “para ontem”.

De facto, mesmo sem sabermos a origem desse pensamento, o nosso cérebro estava a fazer alguma coisa. Dizer “não estou a fazer nada” é o mesmo que dizer “estou morto”, mas os mortos não falam. Ainda.

Até dormir é fazer muito. Não ativamente, mas o corpo e o cérebro andam todos malucos a fazer as coisas que não têm tempo de regenerar de dia. E também a inventar os sonhos que me ocupam boa parte das noites. Se estamos vivos, estamos sempre a fazer alguma coisa, e isto, é irrefutável.

“Ter a folha em branco” e “não fazer nada” são uma forma quase poética de enganar quem nos questiona. O que na verdade queremos dizer, ou esconder, é que “temos a folha em branco” porque não temos capacidade para a encher de coisas interessantes. Significa que até os riscos que vêm de origem só existem para dar trabalho às borrachas.

O mesmo para quem diz “não estou a fazer nada”. Na verdade, mais vale dizer “não estou a fazer nada de jeito”, e com isso, eu vivo bem.

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