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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Gosto tanto de escrever que às vezes inscrevo-me em cursos de escrita só para reservar tempo para escrever outras coisas. Talvez seja só desorganização minha, que não gerir o tempo para fazer uma das coisas que mais gosto. Seja qual for o valor, a alegria que me traz é impagável. Quer dizer, paguei para ser feliz. Agora sim, percebo outras atividades.

Podia escrever uma crónica inteira sobre isto, mas isso seria adulto. Um adulto a escrever para adulto ler. Hoje não há crónica. Há uma partilha diferente. Partilhar um exercício que fiz em poucos minutos. Um diálogo entre partes do corpo. Não digo quais, acho que se percebe.

  • Heeyy. Hey! Onde é que vamos?
  • Espera um bocadinho que já vais sentir.
  • Diz-me. Vá lá.
  • Estamos quase a chegar.
  • Por favoooooorr. Estou muito apertado nestas meias e nestes sapatos. Quero sair.
  • Estás com sorte. Acabámos de chegar.
  • Estamos a andar para onde? Este chão é esquisito. É mole.
  • Faltam poucos passos, relaxa.
  • E continuo apertado. Muito apertado. Uoouu. Este chão é divertido, parece um baloiço.
  • Prepara-te. É agora!
  • Aaaaahhhh. O que é isto? É ainda mais mole. É o mesmo chão de há pouco?
  • Sim. Chama-se areia.
  • Que divertido. Faz cócegas. Parece infinito. Acho que este chão vem comigo para casa.
  • Só se não te lavarem bem.
  • Como assim? Aqui há água. AAAAAHHHH. O que se passa? Está quente. Quente. Quente. Se tu consegues ver porque é que estás a fazer isto?
  • Ups. Desculpa, eu não sabia. Eu consigo ver, mas tu é que consegues sentir. Vamos esperar um bocadinho.
  • Diz às mãos para experimentarem. Isto é muito divertido.
  • As mãos já sabem, só tu é que ainda não.
  • Porquê? É impossível virem cá sem mim.
  • Sim, e já viemos, muitas vezes. Mas quando nascemos, tu só servias para decoração.
  • Não estou a perceber. Foi o chão quente que te aleijou os pensamentos?
  • Nascemos juntos, mas quando éramos pequeninos ainda não sabíamos para que servias. Por isso, só dava para te pôr meias e mais meias.
  • Já me lembro. Andava sempre no ar. Ainda me lembro a primeira vez que… AAAAAAAHHHH. ESTÁ A FICAR QUENTE OUTRA VEEZZ. PÁRA COM ISTO!
  • Aguenta. Tu és forte!
  • AAAAHHHH. Não quero mais. A areia é parva. Não quero… AAAHHHH. ESTÁ GELADO. Vocês aí em cima são malucos?!
  • És tão dramático. Como é que não gostas disto? É lindo!
  • Eu não vejo nada, lembras-te?
  • Ah, pois é. Esqueço-me sempre. Isto é a praia. Há areia mole, areia dura e areia molhada. E há o mar, que é mesmo muita água.
  • Água como nos banhos?
  • Não. Esta água não tem fim e é diferente da outra.
  • Diferente como? Explicas-me?
  • Hummm… é uma água que depois de ir embora me dá comichão. 
  • E a mim?
  • A ti não sei, mas acho que tens sorte porque te vão dar outra água antes das meias.
  • Isto é confuso.
  • Também acho, mas já vais perceber. diálogo entre os olhos e os pés.
17 Nov, 2025

Nem tudo é doença

Podia ser o caso de mais uma expressão popular que envelheceu mal, mas não. Aqui, quem evoluiu mal fomos nós, pessoas demasiado humanas e vulneráveis, sem espaço para assumir culpas de nada, prontas a culpar tudo e todos, até nas nas coisas mais mundanas possíveis. Já não há enganos nem distrações, só doenças.

A dislexia, a ansiedade, o défice de atenção e a transtorno obsessivo-compulsivo nunca tiveram tantos fãs. Nem tantos diagnósticos. E ainda bem. São doenças doentes, infetadas pelo hype e pelo mainstream que as vulgariza. Ou seja, estão tão na berra que todos querem um bocadinho.

A dislexia é um problema real, eu sei, mas quando alguém se engana a escrever uma “palarva” não quer dizer que seja. Estranhamente, é mais fácil dizer “sou um bocadinho disléxico” que apenas “enganei-me”. Afinal, errar ainda é humano?

Levo as doenças demasiado a sério para não querer um bocadinho de cada uma. Já tenho suficientes, só não tenho nenhuma destas. Parece que somos todos cadernetas sedentas de mais um cromo, mas cromos somos nós por querer qualquer doença.

Ansiedade é uma palavra que só de escrever e falar me dá medo, porque nem consigo imaginar o que deve ser sobreviver com ela. Respeito-a demasiado, a palavra e a doença, Nem consigo escrever um exemplo que não seja uma perfeita desvalorização do que é ter ansiedade.

Já sobre as duas doenças que se seguem estou muito mais à vontade. Aliás, as duas estão tão presentes nas conversas do dia-a-dia que até os acrónimos em inglês já fazem parte do dicionário. ADHD é TDAH, OCD é TOC e se calhar fazíamos um STOP a esta banalização.

“Agora todos têm défice de atenção” ouve-se tanto como “tenho um bocadinho de (inserir acrónimo mais cool)” e, na verdade, até pode ser verdade. E se calhar é mesmo, mas não acredito em todos os que dizem que têm, só porque são um bocadinho distraídos.

Quem quiser gritar aos sete ventos que tem défice, que me traga uma declaração. Somos ou não somos o país das burocracias? Eu quero esta. Só para não se descredibilizar as doenças que não se conhecem tão bem. Se nenhum careca diz “tenho um bocadinho de cancro” porque é que alguém quer ter um bocadinho de outra doença qualquer?

E é de bocadinho em bocadinho que quem organiza as camisolas por cores tem um bocadinho de OCD. Ou TOC. Neste caso, ambos os acrónimos são cool para saírem da boca para fora com estilo. Ser organizado é uma coisa, sofrer de um transtorno obsessivo-compulsivo é muito diferente. E as diferenças começam no verbo. As doenças não se “têm”. As doenças sofrem-se e superam-se. Quanto muito, é a doença que nos tem a nós.

Há sempre uma doença na ponta da língua e nenhuma se passa num beijo. Se assim fosse, talvez as quisesse todas.

12 Nov, 2025

O meu Pai

Romantizei a morte do meu Pai, com ele, quando vive com muito mais saúde que eu. Romantizei a ideia de um funeral que fosse uma festa tão boa como a vida dele. Romantizo a ideia de que vai ficar tudo tranquilamente diferente, mas não vai. Eu sei lá o que na verdade nem quero saber.

Romantizo a morte do meu Pai para disfarçar o pânico que vem com ela, mas romantizo a ideia por ser a ordem natural de uma vida em que a minha mãe é muito mais nova. Romantizo por ser uma de amor. O meu amor pelo meu pau.

Ups. Deixei um erro difícil de evitar só para o fazer sorrir agora, apesar de sabermos todos que queria ter escrito Pai, com letra maiúscula, letra grande, nunca tão grande como ele.

Não romantizo a morte, que não quero ver. Romantizo a ideia de lhe fazer uma festa, uma homenagem póstuma com discursos carregados de elogios e histórias divertidas, escritas ou improvisadas. Mas é uma ideia demasiado boa para ficar guardada. Que justiça seria esta de ser o meu Pai o único a não saber a festa que quero fazer para esconder um vazio que me pode impedir de a fazer?

Não vou partilhar a ideia. Ele sabe qual é. Eu também. E rimos juntos. A minha mãe não acha piada, mas a festa também não é para ela. Mas espero que ela vá, mesmo sabendo que não está a gostar nada de ler isto. Não te preocupes, Mãe, a partir de agora vou escrever a homenagem.

Ninguém mantém tantas pessoas vivas como o meu Pai. Que conta histórias e histórias sem fim, sem se cansar, sempre com o entusiasmo de quem a conta pela primeira vez. A vida já lhe levou a maior parte do elenco, mas ninguém diria. Até para mim que já sei uma boa parte delas. Sei quase sempre o final, mas acabo sempre surpreendido.

Contar histórias é um talento e saber que são reais é estar a vê-lo pintar com todas as cores um livro que quer fugir a preto e branco. E nem isso o faz parar. Se é a memória que mantém as pessoas vivas, o meu Pai é médico e eu não sabia.

Parece que não sorri, mas alegra todos os sítios onde está. Parece que está sempre sério, mas derrete-me com mil e um gestos amorosos, mesmo quando não são para mim. Sabe ser discreto, mas nunca passa despercebido. Parece ser um homem de poucas palavras, mas tem sempre as palavras certas.

Tais como as que me repetiu vezes sem fim, vezes sem conta, até eu próprio me tornar dono delas. Palavras que sempre foram apoio e carinho, abraço e abrigo. Palavras que me permitiram fazer tudo sem arriscar nada. E mesmo que seja uma frase feita de um qualquer cliché, para mim será sempre só dele: “o não está sempre certo.”

Sei tantas letras. Sei tantas palavras. Sei que as posso escrever todas sabendo que nunca nenhuma delas estará à altura de descrever quem é o meu Pai. Para mim e para todos. Dizer “amo-te” não me é fácil, mas encontrei uma forma esquisita de o fazer.

Não conheço ninguém que não saia de casa sem um toque de perfume, água de colónia, creme hidratante ou protetor solar. Ou todos ao mesmo tempo. Recriamos o cheiro que queremos ter, mas será que sabemos mesmo a que cheiramos?

À partida, não. Não consigo cheirar o meu pescoço. Nem o peito, mas enchi-me de coragem para viver uma semana sem qualquer aroma espalhado na minha pele. Só usei gel de banho. Há mínimos. Estes são os meus. As coisas que eu não faço em prol da ciência.

Tudo isto pela ciência e pela descoberta de como o perfume transforma o que pensam de mim. Uma experiência egocêntrica, sim, mas quiçá com resultados para partilhar com alguém.

Já me disseram várias vezes que cheiro bem, até mesmo ao final do dia. Até mesmo pessoas sem qualquer interesse de me querer cheirar todo nu, que são as mais importantes para o estudo.

Cheirarem-me todo nu parece um fetiche. Não é. Foi só uma analogia para envolvimentos corporais demasiado próximos e que, sem querer, também envolvem o nariz. Envolvimento esse que, segundo dizem, também cheira a qualquer coisa.

Em tempos, aprendi que pessoas solteiras não devem utilizar perfume. Nem nada além do tal mínimo olímpico que é o gel de banho. Dizem que um humano solteiro, naturalmente à procura de acasalar, liberta feromonas para atrair o sexo pretendido. Aqui, sexo é o da pessoa, mas também pode ser a atividade lúdica.

E pela ciência lá me atirei eu a uma semana sem perfume, sem creme, sem truques. Andei de comboio e autocarro, andei em espaços públicos com pessoas variadas e fui testando, testando e testando. Ninguém me saltou para cima. Nem mesmo quando os transportes se tornam uma desculpa para aproximações esquisitas.

Acho que estes 7 dias são representativas. São já uma amostra real e fidedigna que comprova pouca coisa. Se calhar sou eu que emano poucas feromonas. Se calhar, são as pessoas que têm tanto perfume que não conseguem sair da sua própria bolha cheirosa. 

Também foi uma semana para tentar descobrir o meu cheiro. O original. Mas não consegui. Até usei roupas mais frescas para nunca me sentir quente nem largar uma pinga du suor. Talvez estragasse as feromonas do acasalamento. Ou talvez foi só isso que faltava. Sem suar, como é que podia cheirar à mensagem certa?

Bem, pela ciência, talvez esta experiência tenha de começar do zero. Talvez tenha de se prolongar durante mais dias. Mas é aborrecido, porque quando estou ao pé de alguém que cheira desagradável, é a cheirar-me que me safo. Inspiro o meu perfume como se fosse um balão de oxigénio.

A ciência merece este esforço. Só não merece que eu invente isto tudo como desculpara para a preguiça de ir levantar uma encomenda que já devia existir no meu pescoço.