Amor nas despedidas
Há quem ame o trabalho e quem ame no trabalho. Provavelmente, ambos na secretária, mas não é só nisto que o trabalho e as relações amorosas são parecidas. Isto foi só uma pequena introdução por onde esses mundos se misturam. Literalmente.
“Enviei um currículo” é só uma forma formal de dizer que se quer engatar profissionalmente. Não enquanto gigolô, nem engatar novos colegas. Aqui, é um engate metafísico, é engatar a firma, seduzi-la aos nossos encantos. É claro que quem toma as decisões são pessoas, e talvez seja aqui o nosso pináculo do engate.
Engatamos às cegas, pois nem sempre sabemos quem é a primeira pessoa deste carrossel do engate. Provavelmente, aqui não há dúvidas, profissionalmente falando somos todos poliamorosos, preparados para a fluidez dos recursos humanos.
Se a contratação é um engate bonito, o que dizer de um despedimento?
Bem, há várias formas de o fazer e todas elas são simplificações do que acontece num namoro. A firma pode querer acabar a relação sem aviso. Pode ser a seco, sem um beijinho nem nada, mas se for com indemnização é o equivalente à “última dança”, ao “último tango”. Sexo. Estava a ser pudico porque quando isto acontece não há grande criatividade para metáforas.
Em qualquer um dos cenários, é preciso levar de volta a casa o que já andava a ser casa noutro lado. E os colegas que ficam para trás são a família que já tratávamos como nossa. Sejam empresas ou relações, também o número é questionável. Há quem vá elogiar e quem ache o contrário. É tudo igual, menos uma coisa.
Quando acaba, o natural é procurar imediatamente um novo engate profissional. Enquanto que no amor, há um período de adaptação sentimental que pode ou não acontecer. Até porque é esse engate de firmas que nos vai garantir fôlego financeiro para esbanjar na outra.
São aprendizagens. Enquanto a firma é obrigada a ensinar, aprender nas relações é um dado adquirido. Quando a firma não forma, paga. Já nas relações, mesmo que não se aprenda nada, é uma lição de vida.
Já eu aprendi que esta crónica merecia mais de mim, mas estar a escrever num computador que não é meu é esquisito. Sinto falta de intimidade. Tenho medo de tocar no sítio errado. Tal como começar num trabalho novo. Tal como beijar alguém pela primeira vez.