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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Não sei quando começou esta história de amor esquecido, mas se o Deixem o Pimba em Paz faz 12 anos, é porque me devo ter apaixonado à primeira vista no primeiro ano de vida. E tudo aconteceu por ser uma pessoa incontinente a dizer que sim a planos. E às vezes também fico com um pingo de entusiasmo na cueca.

Conheci este projeto musical sem querer. Por ter dito que sim a um convite sem saber ao que ia. Mas quando se quer impressionar os amigos da namorada… provavelmente nem queria impressionar ninguém. Achei o nome giro e também quis ir. Sou fácil de convencer no que à cultura diz respeito.

Foi tão intenso e transformador, que fiquei fã e atento a futuros concertos, CD’s, ou até um Spotify. Até que me esqueci como se fosse uma paixão de verão. Daquelas que ficam para a história sem deixar cicatriz. E cada vez que vi o nome surgir, apaixonava-me outra vez.

Uns anos depois, um qualquer concerto ficou eternizado no Spotify. Partilhei apaixonadamente com quem me rodeava até esgotar a roda e me esquecer outra vez. Talvez por ser um projeto intermitente, nunca teve lugar cativo no meu coração.

Uns anos depois, Deixem o Pimba em Paz regressou para ser o primeiro espetáculo pós-covid que ainda era durante. O primeiro esboço de normalidade para os concertos que demoraram a ser normais. Mas sobre isso também já escrevi.

Entretanto, fazem 12 anos, celebram com 12 concertos e eu num deles com o carinho de quem parece sempre ouvir a música pela primeira vez. E com um gostinho especial por sentir que há tanta gente na sala que ainda não sabe bem ao que vai. É música. Muita música. Boa música, mas que faz rir mais que alguns espetáculos de comédia.

Musicalmente, é brilhante. Troca-se o bailarico pelos lugares sentados, a cerveja pela sede de novidade e o orgão que toca tudo por vários instrumentos que soam lindamente juntos. E é naqueles segundos iniciais que a música deixa o público às escuras, porque só vai perceber, quiçá no refrão, de que música se trata.

É como ler Os Maias em banda desenhada. A história é a mesma, mas contada de um forma tão diferente ganha outro encanto. A meio das músicas, até parece que também há incesto, mas não chega a tanto.

Alguém se lembrou de despir a música pimba de metáfores e sinfonias, despida de preconceito, brilhantes e lantejoulas. A poesia fica a nu e todos ficam desamparados. Ninguém quer ver nudez de repente, assim sem aviso prévio. Ainda assim, se os astros se alinharem, até pode ser uma noite animada. Já no concerto, é sempre.

É a terceira vez que vejo Deixem o Pimba em Paz ao vivo e esta é a segunda crónica que escrevo para o mesmo tema. Talvez na primeira ainda não soubesse que sabia escrever, mas prefiro acreditar que fiquei sem as palavras todas.

Gosto de ir à janela no avião. E não tem nada a ver com a paisagem. É só preguiça, comodismo e muita, muita mesmo, vontade de estar quieto. Não me importo de ir no lugar do meio, nem “à coxia”, mas à janela vejo a miragem de um voo descansado.

O meu corpo é feito para estar sossegado. Só isso já devia ser requisito para ir à janela. Saber estar quieto e ter controlo da bexiga. Eu tenho ambos. Já voei para Salvador (Bahia, Brasil) e voltei, que é coisa para durar 9h. Em ambos, sentei-me antes do avião descolar e só me levantei quando aterrou. E nem assim fui dos primeiros a levantar o rabinho do lugar.

Nem fui à janela, fui à coxia. E não sabia o significado da palavra até hoje. Primeiro, achava que se escrevia cochia. De certa forma, o “x” tira alguma classe à palavra. Mas para andar de avião também já não é preciso classe nenhuma.

Pensei que coxia fosse o lugar que dá mais jeito aos coxos. Como eu. É mesmo à beira do corredor, não é preciso fazer aquele exercício louco de andar de lado para chegar a qualquer outro lugar e também dá para esticar uma perna. Com jeitinho, duas.

Mas não é nada disto. Coxia é corredor. “Andar no corredor” só pode ser da plebe e “passear na coxia” já tem ar de nobreza. Talvez seja assim que se recupera a classe.

Voltando ao lugar, cuja atribuição tende a ser aleatória, talvez fosse interessante preparar umas perguntas, também elas aleatórias, para conhecer o perfil do passageiro e, assim, atribuir-lhe o lugar mais indicado. Que nem sempre é o que a pessoa acha que gosta mais.

Adorar o lugar da janela, mas ser o primeiro a levantar-se quando o avião aterra não faz sentido. Pagar mais 1,50€ pelo bilhete para “compensar a pégada de carbono” também não, mas eu às vezes contribuo. Mesmo que nunca tenha lido nada sobre essa vontade sustentável de uma companhia aérea.

Voltando à rota original, que não deve levantar voo daqui para fora, este tipo de perguntas são muito mais interessantes que aquelas duas. “Transporta materiais perigosos?” Quem não transporta, clica em “não” e faz o check-in. Quem, de facto, traz uma catana na mala de mão, clica em “sim” e não consegue fazer o check-in. Portanto, clica em “não” e avança. Tal como a catana.

“Alguém pode ter interferido com a sua bagagem?” É a pergunta que mais inquieto me deixa. Primeiro, porque sei que tenho de clicar em “não” para poder completar o check-in. Segundo, porque se for para o porão, eu já não sou responsável por interferências. Olhos que não vêem, coração que não sente.

Ou seja, estas perguntas não adiantam nada. Sem clicar nas únicas opções certas, não há bilhete nem lugar para ninguém. Se é para não dar bilhetes, que as perguntas sejam “tem a bexiga pequena”, “não consegue ficar muito tempo no mesmo sítio” ou até mesmo “bate palmas quando o avião aterra”.

Quem responder que sim, não pode entrar no avião por comportamento impróprio. Ou vá, que fiquem no lugar do meio, lá nas últimas filas onde se faz fila para ir à casa de banho.

Firenze Rifredi, um nome bonito que pode parecer tudo. Mas é só uma estação suburbana de arquitetura funcional. Uma espécie de Monte Abraão em tons de azul, onde dois primos se preparavam agora para descobrir como podiam chegar a Bolonha.

Nada me fez sentir tão em casa como ver as bilheteiras sem ninguém. Deve ser um traço deste nosso estilo mediterrânico. Sobravam as bilheteiras “desenmerda-te” - em que somos verdadeiramente os únicos responsáveis pelo nosso futuro.

Futuro esse que se chamava Bologna Centrale, com uma paragem e transbordo em Prato Centrale. Os nomes parecem bonitos só por serem italianos, porque estas estações são tão bonitas como uma travessa de inox - tem o seu encanto, mas na luz certa até dói nos olhos.

De bilhete na mão, subimos à plataforma que nos informou de que só faltavam 55 minutos para o comboio. Que chegou. Na linha certa. À hora errada. Mas desde que os atrasos não me façam descer escadas a correr, tudo certo.

Por momentos, pensámos que seria uma viagem bonita pelos campos verdes e pelas montanhas não tão altas que os posters de Itália apresentam. Mas não. A viagem era a experiência menos turística possível, com vilas e aldeias industriais, casas no meio do nada - essas sim, bonitas - mas muito pouco encanto no geral.

A minha prima estava preocupada por termos apanhado um comboio atrasado, mas confiante porque “o próximo comboio espera por nós”. Nunca na vida eu pensei que um comboio me pudesse dar esse prazer, mas confiei. “Quando vou para o Alentejo acontece sempre, um comboio espera pelo outro.” - disse ela.

Até que chegámos a Prato Centrale mais centrados que nunca, com paciência de santo e mindfulness em dia. De shakras alinhados, nós e o comboio, descobrimos que , ao contrário dos outros, este tinha vontade própria e vivia pontual.. Tanto que já tinha ido embora.

Depois de rir um bocadinho, fomos à bilheteira perguntar, só por descargo de consciência, se podíamos continuar com o mesmo bilhete. Podíamos. E, por sorte, só faltavam 55 minutos para o próximo comboio. “Mais vale irmos beber qualquer coisa, já merecemos.” Só que Prato Centrale é uma espécie de Mira-Sintra Meleças, onde nem os pombos estacionam.

(Nota: Eu sei, esta crónica contribui para a gentrificação por estar muito focada na Linha de Sintra. Mas tenho pouco mundo no que a estações de comboio diz respeito.)

O tal comboio chegou, depois de muitas fotos e momentos a rir protagonizados por duas pessoas emocionalmente desequilibradas com a experiência, mas felizes. Sempre.

Conclusão: para não gastar 30€ numa viagem de 1h30 num comboio sem paragens, pagámos, no total, 25€ por 5h45 de momentos a dois em três comboios. Tão barato como um Pack da Odisseias.

Eu dou-me bem com as horas. Mesmo as que passam a voar. Mesmo as que custam a passar. Já com horários, não me entendo. É por isso que quando vou viajar, existe uma preocupação à minha volta sobre se volto. Dizer que perdi qualquer coisa nunca surpreendeu ninguém. Fosse um lápis na escola ou um voo para qualquer lado.

Voos ainda não perdi, por sorte. E foi num dos últimos que consegui, com a ajuda da minha prima que é igual a mim, transformar uma viagem de 1h30 em quase 6h. Podem dizer que somos distraídos, eu prefiro talentosos. Mas um daqueles talentos esquisitos que fazem furor em programas de televisão.

Depois de Bolonha - Florença ter sido tão tranquilo, talvez o regresso precisasse de animação. Por isso, foi de manhã que procurei pelo bilhete de comboio mais barato, mas também que fosse direto, sem transtorno para o nosso transbordo - só porque uma vez nos distraímos com a troca de autocarro e ficámos na Gare de Évora durante 5h30. Évora é linda, só não recomendo essa paragem.

Bilhetes comprados, dinheiro poupado, e lá vamos nós com 1h de antecedência para a estação de onde tínhamos vindo - Firenze Santa Maria Novella. À chegada, vimos um exagero de linhas e horários, vimos comboios para todos os destinos menos o nosso. Foi aí que a minha prima leu o bilhete que eu tinha comprado.

Firenze - Bologne estava certo, mas não imaginei que existissem mais 3 estações a começar por Firenze. Felizmente, o meu erro levou-nos a Firenze Rifredi. Foi dos melhores erros que já fiz, porque não precisávamos de sair da estação para lá chegar. Era só apanhar outro comboio para a outra estação sem outras. E ainda tínhamos muito tempo até ao outro comboio.

Chegámos a Firenze Rifredi, uma paragem suburbana que nada tinha a ver com a imponência, beleza e versatilidade da Firenze Santa Maria Novella. Vimos que o “nosso” comboio era exatamente na mesma linha onde parámos. Que sorte, achei eu, enquanto dizia à minha prima “isto foi tudo para vermos um bocadinho da verdadeira Florença.”

Nesta estação muito pouco internacional, só se falava italiano. Tanto as pessoas como os altifalantes. E foi por aí que eu entendi que o comboio, intercidades, estava com um atraso de 10 minutos. Continuámos a ler e a esperar, impávidos e serenos, até que aparece, noutra linha, um comboio azul, intercidades.

Eu digo “olha, deve ser um daqueles” e poucos segundos depois ouve-se nos altifalantes, em inglês pela primeira vez, que o comboio atrasado ia chegar a outra linha. Pegámos nas coisas, descemos e subimos escadas até uma plataforma completamente vazia. O tal comboio azul era o nosso.

Se avisaram em italiano, eu não entendi. Mas os ecrãs da estação também não porque nunca atualizaram essa informação. Parecia que aquela mensagem em inglês tinha sido criada só para nós, mas como demoraram tanto a traduzir, o comboio foi andando. E assim começava mais uma odisseia, mais ou menos aguardada por quem nos ama.

 

(contínua na próxima segunda, dia 14)