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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Será que já algum incêndio foi provocado por uma produtora de papel que tinha adjudicado as próximas eleições portuguesas e não teve tempo de deixar crescer as árvores? Fica a questão para a qual não interessa a resposta. Pelo menos, não por agora.

Agora que o governo caiu e as eleições estão marcadas para daqui a dois meses, venho como independente fazer campanha pela ausência delas. Das campanhas, dos outdoors, das bandeiras, dos panfletos, das cartas no correio, mas não dos bonés. Os bonés podem ficar. De boné é muito mais difícil comer gelados com a testa.

Estas eleições legislativas vão ser as terceiras em quatro anos. Ou seja, são talvez 66 milhões de folhas para votar. Somos 11 milhões, portanto, nas três eleições imprimem-se 33 milhões de folhas. Só disse 99 porque o papel é tão grosso que devem ser 3 folhas coladas para fazer uma. É até poético pensar assim neste país de remendos.

Isto tudo sem contar com as presidenciais, nem com as autárquicas que são 3 folhas numa única eleição. É muito papel. E não daquele que se fala com tanto gosto. Enquanto criativo, adoro tanto campanhas eleitorais que sonho fazer uma. Enquanto ambientalista, torna-se impossível continuar a votar em papel e nenhum partido se chega à frente para lutar contra a desflorestação eleitoral.

Mas como neste país tudo se faz devagar devagarinho, podíamos só começar mesmo pelo dia de ir às urnas e falar a sério sobre voto eletrónico. É estranho que o Brasil já o faça há tantos anos e Portugal ainda não. Este argumento deve ser um quebra-cabeças para quem ficou no século passado e quer recuperar “países que outrora foram conquistados”.

É estranho saber que o voto eletrónico já existe em Portugal, mas só quando se vota para o Brasil. O voto eletrónico está cá de férias, mas infelizmente nunca fica. Parece que Portugal é um destino atraente para tudo menos urnas eletrónicas.

Não sou ingénuo. Sei que o voto eletrónico ainda vai demorar neste país envelhecido. Contudo, tenho mais uma ideia ambientalista, talvez pouco convencional, para reduzir o impacto ambiental das próximas eleições.

A data está errada. O tempo entre o governo cair e as próximas eleições não devia ser 2 meses, mas sim 2 semanas. E uma delas seria para o voto antecipado porque as pessoas podem já ter viagens marcadas e eu ainda acredito em baixo níveis de abstenção.

É claro que, nesta hipótese, não havia tempo para campanhas e arruadas. Nem para espalhar papelada por aí. Resolvia-se tudo em debates e tempos de antena na televisão, que depois se cortam para vídeos curtos nas redes sociais. Podemos só experimentar?

Não me parece justo serem os partidos a fazer birra e ser o povo a ficar de castigo.

Poucos são os dias em que as rotinas são tantas e tão diferentes. Para quem trabalha das 9h às 18h, de segunda à sexta, o domingo é o dia em que podemos experimentar como é a vida de um nómada digital em Portugal. Com carteira de português.

Eu sou desse rebanho que tenta ser útil 5 dias por semana, útil a quem me paga para o ser. Também paga quando não sou. É uma relação esquisita, uma cena capitalista. Não é uma questão de fé, mas trabalho todos os dias como quem vai à missa aos domingos. A empresa é o meu pastor, nada me faltará.

O fim de semana é o momento em que me perco do pastor, do rebanho, e vou, quase sempre perdido, fazer qualquer outra coisa. Sábado é diferente sem o ser. É um dia que ainda cheira a trabalho. Cheira a semana. É um dia para fazer o que o pouco tempo livre dos dias úteis não deixa.

Domingo tem outro encanto, até na hora da despedida. E o meu domingo é o que quero partilhar. Só por ter sido bom. Por acordar sem despertador, por ter vencido a preguiça de estar na cama e ter ido ao yoga. Mesmo sendo uma aula ao 12h. Ser otimista é fazer do mais pequeno esforço uma vitória. Já no yoga, esforcei-me imenso.

Calções de desporto e meias que não combinam, uma camisola de carapuço e um casaco daqueles compridos. Até a minha indumentária cheira a nórdico. Não tanto por ser confusa, mas só pela falta de frio nas pernas. Não é que não tenha, mas prefiro dar uns passos de calções na rua fria do que me despir e vestir tanta vez ao dia.

Podia ter dito outfit, mas para inglês já me chega a aula. O yoga é bilingue, mesmo com uma teacher portuguesa. Mesmo com a maioria dos students portugueses. Só que o yoga é muito à base de imitar os outros. É uma espécie de “um, dois, três, macaquinho do coisinho”.

Flexibilidade em dia no corpo e na mente também para poder almoçar às três da tarde. Num restaurante bonito, só eu, o meu livro e a minha mente louca que raramente me dá descanso. Não sei se os nómadas digitais almoçam muito sozinhos ao fim de semana. Talvez só nos primeiros dias cá, antes de fazer novos amigos.

Almoçar sozinho tem um encanto especial. É um desafio estar sozinho num mundo em que ir ao telemóvel é batota. Almoçar é capaz de ser o nível dois deste desporto onde eu sou campeão. Almoçar sozinho pode ser comum em dias úteis, com o tempo contado e sem tempo para mastigar. Almoçar ao domingo sozinho é diferente. É especialmente bonito. Uma espécie de declaração de amor próprio. Porque eu mereço esta espécie de masturbação.

Almoçar sozinho durante a semana é desinteressante até nas conversas que se ouvem nas mesas ao lado. Profissionais e sem grande liberdade porque pode sempre aparecer alguém. Mas ao domingo, aparecer alguém que possa ouvir o que não se devia saber é altamente improvável. Quase tanto como eu hoje ter ouvido um rapaz dizer que teve medo de andar de comboio até aos 20 anos. E só por isto, já valeu a pena.

Fazer anos é uma espécie de casamento sem par. É a oportunidade para estar junto das pessoas que mais gostamos, principalmente das que vemos menos. É como um funeral, a única diferença é que também estarei presente, mas tal como em muitos outros eventos, estou distraído e não ouço nada.

O jantar de aniversário fica entre o casamento e o funeral. Não há tantas desculpas para convites que puxam pela culpa de não faltar a uma “data importante”. Para faltar a um funeral, há desculpas a mais e, mais importante, quem “convida” não se importa com quem vai ou não.

É sempre mais fácil rejeitar um café num qualquer sábado de chuva que desiludir quem nos convida para estas festas, mesmo que não exista bolo nem velas. Aniversários e casamentos são uma espécie de egocentrismo que desvalorizamos, uma vez por ano ou uma vez na vida. Até porque egocentrismo em doses elevadas aborrece muita gente.

Talvez o casamento não seja egocentrismo porque à partida são duas pessoas a convidar, mesmo que cada um convide os seus. Aniversários já tenho muitos em meu nome, casamentos é que não. Já como convidado, vou sempre.

Por mais que goste do meu dia de anos e de juntar à volta de uma mesa as pessoas que mais gosto, não gosto de ser o centro das atenções para muitas pessoas. Mesmo que me ignorem o tempo todo, sei que estão lá por mim e isso já é emoção a mais. Por um lado, quero estar com todos, por outro não quero que estejam todos de olho em mim. Este egocentrismo, tal como em muitas das coisas que faço, faço sem compromisso.

O que mais se ouve no pós-casamento é que foi incrível, mas “não tive quase tempo nenhum com ninguém”. É o mesmo que sinto em cada aniversário. Sinto-me momentaneamente frágil porque “dou-me com toda a gente, não me dou a ninguém”.

A diferença é que me dou, dou muito, dou tudo. Isto parece muito mais intenso do que realmente é. E sou. Mas já que estou a escassos minutos de fazer anos, acho que posso.

Pode também dizer-se que, isto que faço aqui, escrever num blog público também é egocentrismo. Que seja. Estou confortável com ambos. É a escrever que limpo a cloud de ideias que tenho e assim criar espaço para todas as memórias que ainda tenho para viver.

Não gosto de escrever estas frases pseudo-sentimentalistas que parecem gastas e já escritas por mais de mil treinadores de auto-ajuda. Mas também me acontece. Tal como no dia que se segue, nem sempre é tudo como eu quero. E ainda bem.

O ano passado foi impossível ser egocêntrico. Dividir atenções com os Óscares e com as eleições nacionais até foi bom. Mesmo se quisesse, não conseguia ser o centro das atenções. Foi ótimo sentir-me importante só em pequenas doses.

E amanhã? Que já é hoje? Em que distrações me distraio para não me sentir o sol no mundo de quem me rodeia? Partilhar o dia com a Olivia Wilde e o Bad Bunny já me chega. Também é o dia da Sharon Stone e do Bin Laden. Cada um apoia-se onde quiser.

O despertador cria rotinas, mesmo que toque todos os dias a minutos diferentes. Em princípio, a hora é sempre a mesma. Pode falar-se que o despertador “desperta a dor”, mas só para quem se deita com ela e não a tem enquanto dorme.

Prefiro ver o despertador como algo que “desperta a vida”. Meio metafísico, eu sei, mas só quem morre é que não acorda. Curiosamente, o som do despertador também pode dar vontade de matar alguém.

Pormenor que gosto: quando se configura o despertador, existe a opção de escolher o “som” e não a “música”. Não é que as opções não sejam musicais, mas matam a metáfora de “música para os meus ouvidos”.

Nunca me sujeito ao som que vem “por defeito”, já tenho suficientes. Ouço todos com a leviandade de saber para que servem. É difícil simular como é ser estimulado auditivamente para despertar todos os outros sentidos adormecidos. Podia testar ao fim de semana, mas o sábado e o domingo servem para acordar com outro tipo de música.

Pode ser uma buzina, campainha ou até um amolador a soprar o mítico pífaro. Curiosamente, duas destas coisas acontecem-me ao domingo, a campainha é coisa de dia útil. Mas voltando ao som, como escolher?

Não pode ser muito irritante nem à bruta. Se quisesse agressão gratuita tinha sido militar. Mas também não pode ser muito suave para não correr o risco de apenas me embalar. Seja qual for a escolha, após uns quantos meses, quiçá estações, qualquer som se torna agradável ao ponto de ser a banda sonora de mais um sonho e nunca aquilo que os pára.

Claramente, isto é um bom tema para se falar com sono, enquanto se confirma que o despertador semanal está ativo e que este feriado solto não mexe “com o sistema”. Ainda assim, acredito que cada pessoa pode escolher ou ficar no defeito de acordar na mesma batida de muito mais que meio mundo.

Este argumento ainda não vi ser utilizado por todos os iluminados que falam sobre sermos todos ovelhas, um enorme rebanho sujeito a bla bla bla. Nunca os ouço assim tanto tempo. Mas devia. Pelo menos para saber como acordam. Diz como acordas, dir-te-ei quem és (inventando uma realidade que seja só chatinha).

Entretanto, eu mudei o som do meu despertador. Outrora uma espécie de ritmo lento em volume crescente, que eu já só ouvia após cinco minutos a tocar ininterruptamente. Não foi nenhum vizinho a dizer-me, mas talvez me tenha esticado no meu sono profundo.

Escolhi um novo, que descrevo como música de fim de aula de yoga. Não sei bem descrever. Não me chateia, não me agrada, só me acorda. 

Nunca cheguei à fase de trocar o som por uma música. Gosto demasiado dessa arte para a desperdiçar nesta rotina. Se escolher uma música que gosto, vou querer ouvir até ao fim. Seria um prazer agridoce, um molho de que também não sou fã.

 

P.S. Peço desculpa pela falta de consistência prometida de uma crónica a cada segunda, mas tentarei voltar à programação habitual. Obrigado por continuares a ler :)