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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Gosto de exercício, do conceito de fazer, não tanto de me mexer. Mas como preciso de me manter ativo para não acabar numa cama, tenho procurado o espaço e o estilo que me motive mais que a sina de acabar a vida numa cadeira de rodas. Sim, porque esse destino mexe-me me tanto como eu me mexo. Pouco.

Tentei ginásios, vários, muitos. Demasiados, na verdade. Perto de casa, a caminho do trabalho. Até fora de mão. Com o entusiasmo natural de quem começa algo novo e com a rigidez de uma tablete de chocolate no deserto.

Gosto de natação, mas sabe-me tão bem estar dentro de água que a vontade de nadar aguenta-se tanto como a minha apneia: já foi de 2 minutos e meio, mas agora só meio.

Voltando aos ginásios, o problema é a minha concentração para ser repetitivo. Sempre as mesmas máquinas, os mesmos exercícios, o mesmo plano. Até quando fui com amigos me distraía a inventar exercícios sem sentido nas máquinas inflexíveis.

A minha alma morre um pouco dentro de um ginásio, com grande pena minha, porque tenho amigos com quem gostava de me desafiar a treinar. Os ginásios desafiam o meu amor, o meu compromisso, porque eu sou capaz de ir se for convidado, mas não vou pelo bom que é treinar, vou só pela companhia.

Também fui ao crossfit. Não pela companhia, só pela novidade. Não do Crossfit em si, mas mais de mim num espaço daqueles. Um armazém enorme com mais testosterona que espaço. Fui experimentando mais coisas, sem sucesso, até tentar Calistenia, também conhecido como Treinos Funcionais.

Também é num armazém, mas é a única semelhança. Foi por experimentar tantos e, finalmente, experimentar este que percebi o porquê do meu compromisso ser tão fugaz em tantos sítios. Manter-me num ginásio é como ver-me concentrado em algo: é raro.

Chegando ao que é importante, os meus 6 meses de treinos sem interrupção, sem desmotivação, algo que não sentia há mais de 10 anos. E a principal razão para isto acontecer são as pessoas, as pessoas do Sthenos Calistenia em Carnaxide.

Enquanto todos os ginásios e afins me tentaram moldar aos preconceitos de treinos e objetivos para corpos normais, o Sthenos adapta-se em todos os treinos a mim. Pode parecer egocêntrico, mas quando se tem mobilidade reduzida e um corpo que não se mexe tão bem como vem nos livros, é esta atenção a detalhe que faz a diferença.

Por mais diferente que seja a aula e cada exercício, há sempre quem me pergunte se estou bem, se consigo e como há outra forma de fazer o exercício. As palavras que me foram ditas numa aula continuam a gritar em todas as outras, “não te preocupes que vais fazer a aula até ao fim, nem que eu adapte os exercícios todos.”

Escrevi isto tudo só para dizer que as pessoas do Sthenos Calistenia em Carnaxide são a principal razão para eu me mexer, me esforçar e ainda gostar tanto para querer voltar. De me querer desafiar. E mesmo que não melhore nada, mentalmente mudou tudo.

“Deixei isso na outra mala” é algo que ainda não me saiu da boca. Maioritariamente porque só tenho uma, bolsa, que apenas troco em desespero de causa. Ainda assim, conheço bem o sentimento. Por outras palavras, “deixei isso nas outras calças”.

Os bolsos das calças, para mim, são meramente ilustrativos, excepto para guardar o passe. Não ando sempre com as mesmas, mas quando as repito de um dia para o outro, sabe bem saber que o passe já vem incluído e que não será esquecido. Claro que já também já me esqueci. Duas vezes. As mesmas em que já fui forreta na vida.

A primeira foi de fácil resolução. Tinha ido de carro para Lisboa, para um descampado qualquer, e tinha de apanhar o autocarro. Mas pagar um bilhete que já está pago é como pagar duas garrafas de vinho e só beber uma. É um desperdício. Por isso, invoquei o adolescente que vive em mim e escolhi apanhar um autocarro que tivesse tão cheio para mal conseguir entrar.

Para minha sorte, o primeiro a passar vinha mesmo como eu queria. Noutro dia qualquer, ignorava-o com sucesso porque não gosto de roça roça matinal. Pelo menos não com tanta gente a ver. Entrei, fui, saí, tudo certo. Uma pequena rebeldia que podia repetir na hora do regresso.

É tudo uma questão de atitude. No regresso, no primeiro autocarro longe de estar cheio. Entrei como se fosse gratuito e assim fiz a minha viagem. É uma rebeldia idiota e por um valor mínimo, mas sou uma pessoa de princípios. Nem sempre certos.

Esta semana foi diferente. Também troquei de calças e pensei “é melhor guardar o passe no casaco porque não confio nestes bolsos”. E foi o que fiz. Génio, eu sei, até ter vestido um casaco diferente antes de sair de casa.

Foi dia 4 e eu tinha carregado o passe no dia 3. Soava muito mais a desperdício financeiro que o exemplo anterior, só não estava com a mesma energia rebelde, mas o meu eu forreta ativou-se outra vez. Spoiler? Não paguei nada e andei em 3 autocarros diferentes. Se no outro dia “poupei” 4,30€, neste dia foram 6,45€. Aposto que é assim que se fazem milionários.

A caminho do autocarro, lembrei-me que tinha guardado o talão de carregamento do passe. Para quê? Para deixar no ecoponto azul. Eu guardo papéis e semelhantes na mochila, no carro, onde quer que seja, só para garantir que sou eu a garantir que vão para a reciclagem. Maluco, mas só um bocadinho e com bons princípios desta vez.

Portanto, tinha a prova de que o passe teria sido carregado 24h antes e foi esse o meu passe para o dia. Entrei no autocarro e disse para a motorista “esqueci-me do passe, mas tenho aqui o talão de que o carreguei ontem, posso entrar?”. Simpaticamente ela disse “não há problema, pode entrar”.

Mais tarde, noutro autocarro, a mesma conversa, a mesma resposta. Só faltava um. E como o melhor fica para o fim, o motorista disse “você é que sabe, pode ser que tenha sorte com os revisores”. Que não apareceram. Tive sorte.

Moral da história: ser ambientalista, mesmo por um simples talão, vale a pena.

Em princípio, estamos sempre em evolução, sempre atrás da melhor versão. Mas só mentalmente até porque, fisicamente, este meu corpo já “foi chão que deu uva”. Uva passa, e mesmo assim, pouca.

Não foi esta a motivação, de ver se o meu corpo ainda dá uva, mas sim para ser levemente menos sedentário andei a experimentar novos desportos e tipos de exercício até me dedicar ao yoga. Fui procurar flexibilidade física, quiçá mental, mas é na língua que estou muito mais treinado.

Língua talvez seja exagero. É mais ouvido. Faço yoga em inglês e isso sim é um verdadeiro teste de flexibilidade. O inglês eu percebo, o nome das posições é que não. Foi estranho ser o único a olhar sempre para alguém para saber qual o próximo esforço. Felizmente, aprendi muito rápido as posições. Sei quais são, fazê-las contínua a ser outro assunto.

Eu tenho o equilibrio de uma folha de outono num dia de vento. Nem a uma árvore me seguro. Faço yoga na parede, com quase todas as posições diferentes da turma. Não é vontade de ser especial, é necessidade. Ainda que tentar uma qualquer posição sem a parede podia dar um bom momento de bowling humano. Eu seria a bola, só não preciso dos dedos para rebolar.

Enquanto treino flexibilidade à procura dos limites do corpo, deixo a minha mente voar tal como a música e o momento pedem. Foi aí que cheguei à conclusão que não sei quem sou em inglês. Serei o mesmo? Em flexibilidade, claro, acho que yoga em português não me estica em nada.

A verdadeira flexibilidade mental talvez seja ser exatamente a mesma pessoa independentemente da língua que falo. Mas não sou. Quer dizer, não sei. É difícil pedir a alguém que me conheça muito bem para começarmos a falar exclusivamente noutro idioma por um motivo tão egocêntrico.

A minha única preocupação é ser tão engraçado em português como em inglês. E depois em espanhol. E fico feliz. Não quer dizer que seja muito engraçado, mas qualquer sorriso me preenche. Ainda que sejam forçados, fico confiante na mesma. Sou muito menos exigente in English.

É aqui que ter amigos emigrantes dá jeito. Para o caso ser verídico, são amigas. Não uma da outra, ainda, mas minhas. E elas já me conhecem um pouco do meu eu inglês, por namorarem pessoas que não dominam o português, e mesmo sem serem inglesas, encontramo-nos lá no meio.

Não sei se sou engraçado, mas um deles perguntou-me se já tinha pensado em fazer stand-up comedy. É um elogio tremendo. Ninguém diz isso de ânimo leve, acho eu, enquanto crio uma nova crise de identidade sobre o facto de poder ser mais engraçado na minha segunda língua.

Pelo menos há uma língua em mim que se diverte.

Tenho teorias linguísticas pensadas, outras saem à pressão. São como cerveja, tenho uma para todos os desgostos. Muitas delas são baseadas em preguiça mental, semelhante à preguiça que me tem atrasado a mim a escrever as crónicas que gosto de publicar às segundas-feiras, às 8h da manhã.

É uma forma gira de começar a semana, de ver alegria no dia que tanta gente odeia. Eu gosto. E não é por ser do contra, mas também não sei porque é que é. E depois deste chouriço mal cheio, vamos aos tais clichés? É retórico. O texto não acaba aqui.

Odiar a segunda-feira é tão cliché como uma comédia romântica que termina na língua de alguém. Pelo menos no filme, a repetição não me aborrece, já na segunda, muito do que acontece, sim. E é tudo uma questão de conversa.

É comum que as primeiras conversas sejam sobre o dia anterior, sobre o fim de semana. Há sempre alguém que pergunta, “foi bom?”, que é uma ótima pergunta, já a pedir uma resposta positiva, só que raramente é respeitada por respostas tais como “curto”, “já passou”, “foi rápido”, e outras trivialidades que não acrescentam nada.

Se a geração Z quer tudo para hoje, a geração que responde isto quer tudo para sábado. Ou para sexta. Têm tanta pressa que ficam sem travões para o fim de semana e quando dão conta já é segunda. O tal dia que tanto odeiam.

Talvez o fim de semana não tenha sido bom e estou aqui eu a protestar em vão com respostas que não ouvi. Até porque não pergunta. Sou pouco proativo quando já sei que a resposta é preguiçosa. 

Às vezes, na loucura, faço perguntas para entrar neste jogo viciado onde já todos têm a resposta debaixo da língua, pronta a sair sem pensar. Pergunto só pelo interesse de responder. Egocêntrico, eu sei, mas a minha ideia é mostrar que existe criatividade nas respostas que damos às perguntas de sempre. A vida não é um teste de escolha múltipla.

É por isso que, desta vez, não vou reler o texto à procura dos erros que possa ter escrito. Principalmente porque o título faz pouco sentido para a crónica inteira. Parecem palavras soltas que serviram apenas como motor de arranque. E nem precisei de Libidium Fast.

Escrevi tal como respondo a perguntas repetidas: sem filtro. A culpa não é das perguntas, só das respostas. É por isso que me desafio a ser estupidamente honesto quando alguém, mais próximo ou mais distante, começa uma conversa com “olá, tudo bem?”

Mesmo quando é só para meter conversa antes de dizer algo que realmente importa, respondo com o que me vem à cabeça. Responder “tudo bem” soa-me sempre mentiroso. Nem me conheço todo, quanto mais afirmar que estou todo bem.

Sobre o meu fim de semana, qualquer que seja, respondo que foi “longo”, “prazeroso”, às vezes estou tão cansado e digo que foi “ótimo”. É tudo uma questão de percepção.