Transportes (pouco) Públicos
Sonho com a vida na cidade que nunca tive. Imagino uma rotina sem carro e quase exclusivamente de metro e autocarro, um ou outro comboio, e talvez até uma bicicleta. Esta última parte é mentira. Com ou sem carro, continuava a ser meio sedentário.
Tenho vida na cidade. Casa é que não. Pormenor que rouba todo este imaginário. Nasci, cresci e vivo no subúrbio, onde impera a vontade de tirar a carta e ter carro ainda na adolescência para dar os primeiros passos privilegiados de liberdade. Onde a única hipótese são poucos autocarros, anda-se a pé enquanto o primeiro amigo não se “encarta”.
É assim que se cresce a pensar que os transportes públicos são a última opção, uma necessidade na falta das outras todas. E eu até gosto de andar neles e gostava que fossem mais a primeira opção, mesmo para quem tem mais. Conduzir é ótimo, é liberdade e conforto. Já os transportes são só liberdade. Liberdade para aproveitar o tempo que dura a boleia de quem já sabe o destino.
E quando é além-fronteiras, os transportes públicos do destino são a primeira opção, até quando não se vai para uma cidade grande. É mais barato que alugar um carro, funcionam bem, dão conforto e liberdade de organizar o dia com a única preocupação de estacionar o corpo nos parques naturais e praias, restaurantes e monumentos.
De volta a casa, voltamos ainda mais mal habituados pelo transportes públicos que funcionam bem. Ou então funcionaram bem só naquele dia e nós é que trazemos a percepção errada. Ainda assim, fora de portas sou atento ao relógio e ao horário, enquanto cá não sei o horário de nenhum.
É tudo uma questão de expectativas. Lá, eu espero que sejam pontuais. Cá, só espero que apareçam.
Gostei de voltar a precisar dos transportes públicos como primeira opção. Apenas para não me tornar no maior mecenas da EMEL. Voltar aos transportes era o sonho que não me esforçava para ter, mas que agora me sabe tão bem.
Vai ser tão bom, pensava eu, ignorante, enquanto me lembrava da rotina que tinha como jovem na faculdade. Umas viagens a ler, outras a dormir. O comboio era uma espécie de sala de lazer onde eu ia diariamente. E agora que lá voltei, não durmo nem leio tanto.
Primeiro, porque tenho mais sono e se adormecer talvez acorde quase sempre no sítio errado. Já no que toca à leitura, ou o comboio abana mais, os meus braços estão feitos uma espécie de gelatina que nem para segurar um livro têm estabilidade. Também achava que ia ler no autocarro, mas os braços que mal seguram livros são extremamente necessários para me segurarem a mim em todas as curvas. Mesmo quando estou sentado.
Só consigo ler enquanto espero por qualquer um deles. E felizmente, até leio bastante.