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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Para comer, para comprar, para beber, para viver todos os dias como se fossem o último. Só isso explica o trânsito e a afluência de todos em todo o lado. E ainda bem, pelo menos há um mês em que o sedentarismo fica sozinho em casa para se passear atrás de tudo.

Mas nada disso importa assim tanto. Dezembro é o mês em que embrulhamos presentes e nos embrulhamos a nós. Figurativamente, claro, embrulhamos o ano, os sonhos, as ambições e as memórias para preparar o próximo. Se tudo correr bem, também nos embrulhamos literalmente uns nos outros.

O Natal é uma desculpa para compensar tudo o que faltou no ano. Só falo de pessoas e de estar com quem se gosta. Tudo o resto pode ficar como as decorações de natal: penduradas.

É nesta altura que corremos atrás de jantares de amigos e família, de colegas de agora e de outra vida. Convívios que só acontecem anualmente, à mesa, porque não há desculpa. É Natal. Por mais difícil que seja, é no Natal que mais consensos há para jantares de qualquer grupo.

No fundo, o Natal tem exatamente o mesmo espírito de um jantar de aniversário. Eu sei que também há um menino a fazer anos, mas não é isso. Talvez sejam os únicos dois momentos no ano em que é muito mais difícil rejeitar um convite. Seja por preguiça ou amor.

No Natal, tal como para um jantar de anos, estar constipado não é desculpa. Aliás, poucas coisas o são para se faltar a um momento assim, em que se conseguem juntar numa só mesa um número muito elevado de pessoas que se gostam muito entre si (Natal) ou que gostam muito de uma pessoa só (aniversário).

Deixamos os dramas de lado para focar só nas coisas bonitas. A verdade é que, por só acontecer uma vez no ano, é mais fácil ter mais sins que nãos. É até deselegante não comparecer a um destes momentos porque o cão roeu a rolha da garrafa do rei das vindimas. Mesmo sendo verdade, é uma boa desculpa para o ano todo. Menos para o aniversário de alguém importante, menos para o do menino Jesus.

É fácil não querer ir e cancelar a qualquer hora, um qualquer jantar num qualquer dia. Mas o Natal e o aniversário de uma pessoa são sempre no mesmo dia. Todos os anos. É fácil gerir. E talvez sejam estes dois eventos os únicos do ano em que mais perto estamos de ter todos aqueles que queremos ver perto.

Excepção feita, pelo que me dizem, ao casamento. Aí sim, é O evento, com letra grande, e talvez o único em que, quem casa, consegue ver no mesmo dia todas as pessoas que andam sempre bem perto do coração. Família, amigos, tudo. Até desconhecidos por um dia. E esse sim, seja em que evento for, é o melhor presente de todos.

Talvez seja o meu momento mais alto enquanto jovem privilegiado, filho único que comprou casa sozinho e vive temporariamente solteiro. Como se não tivesse já demasiado tempo só comigo, consegui fechar-me na varanda à meia-noite de uma terça-feira. 

Não estava a ser uma noite normal, mas devia. Estiva a ler um livro, com jazz instrumental de fundo enquanto a máquina de lavar roupa fazia o que melhor sabe. E quando acabasse, seria meia-noite. Uma ótima hora para estender roupa e deitar-me finalmente cedo a um dia de semana.

O frio é para lá de muito, e ainda bem que era uma marquise. Pensei em entrar lá, onde só cabe um estendal e eu, e encostar a porta para não entrar frio no quarto. Encostei, estendi a roupa e conclui que tinha uns belos vidros. Tudo porque a minha marquise consegue ser acolhedora a meio da noite. Demasiado privilegiado, a sentir que sou o único português que conheço com bom isolamento para inverno e verão.

Produtividade máxima numa noite que parecia estar mesmo mesmo a terminar. Volto-me para o quarto e “abro” a porta. As aspas são a minha forma de dizer que não abri nada porque estava fechado. É daquelas portar de correr que só se abre de um lado. E agora, o que faço?

O telemóvel ficou algures ligado à corrente, menos uma opção. Olhei para a rua, abri a janela e assobiei. Se alguém estivesse à porta dos prédios, iria querer procurar de onde vinha o assobio, porque a curiosidade é sempre mais forte. Mas não, ningém apareceu. Nem pessoas, nem carros, nem nada. Talvez fosse a única pessoa acordada naquela terça que já era quarta.

Mas mesmo que lá estivesse alguém, o que podia fazer? Gritava o número de uma das pessoas que tem a minha chave de casa para me salvar? Não queria acordar ninguém com esta notícia, mas também não havia ninguém a quem dar o número. Menos uma opção.

E se eu gritasse até que um vizinho ouvisse e viesse à janela para voltar à solução do número de telefone? Mas agora sou uma pessoa que grita à noite e incomoda quem já dorme? Também não me identifico com isso e pensei que se ao menos tivesse o livro, estaria entretido até de manhã.

Podia aproveitar o tempo sozinho e fechado sem distrações para refletir na vida, mas já o faço muito e não tenho nada em que posso pensar tanto tempo. Apenas concluí que podia esperar pela manhã para chamar pessoas, ou só seria encontrado na quinta. Ou sexta.

A noite continuava a bom ritmo e eu sem horas para saber o que fazer. Até que tentei empurrar a porta e forçar a fechadura. Não me acho assim tão forte, mas pulso mole em janela dura, tanto bate até que abre. Empurrava à bruta e descansava, como se fossem repetições de um qualquer treino no ginásio. Não era só mais fácil partir a janela?

Talvez, mas depois ia dormir com vidros pelo chão do quarto? É que eu já me conheço, não ia varrer nada àquela hora, nem me apetecia “entrar em despesas” futuras. Voltei aos empurrões, com jeitinho para não aleijar as mãos, que são o meu “ganha-pão” e vinho e tudo.

O vidro começava a deslocar-se e, na minha cabeça, já imaginava o vidro a estalar com a porta sem se abrir e eu cego com um vidro no olho. Sempre fui pouco dramático.

Voltei a empurrar, com as mangas a proteger as mãos. Lembrei de olhar à volta daqueles 3 metros quadrados e peguei no escadote para empurrar a janela sem lhe tocar. À primeira tentativa, a porta abriu. Libertei-me sem estragar nada e fui um pequeno génio.

Podia ter pensado nisto antes, verdade, mas o que interessa é ter saído, são e salvo, sem chatear ninguém. Já no quarto, fechei a porta e a fechadura funcionava. Parece que o único aborrecimento seria mesmo a hora de sono perdida.

Sim, apenas estive fechado uma hora. Talvez esta seja a história de superação mais irrelevante da época natalícia, mas sentir-me feliz sozinho é sempre um bom presente.

Nunca pensei que as touradas fossem tão próximas dos musicais. Mas são. Pelo menos nas emoções que provocam. Quem gosta nem sempre o demonstra e o meio-termo não existe, porque a maioria faz questão de dizer “odeio musicais”. Mesmo quando a frase é para elogiar algum. “Odeio musicais, mas aquele até foi bom.”

Eu gosto de musicais. Para ver no teatro, no cinema, em casa. E não quero evangelizar ninguém, mas é difícil ignorar quando o argumento é apenas “ah, mas do nada começam a cantar.” Porque quando o homem-aranha atira teias do pulso é perfeitamente normal.

Um musical é quase fantasia ou ficção científica, sem super-heróis, mas com toques de magia. Ainda assim, mais verosímil que o Harry Potter, mesmo que não seja esse o objetivo.

É estranho sermos tão musicais, a cantar no carro e em casa a plenos pulmões, mas também impávidos e serenos, em silêncio e estáticos, a ouvir a música nos headphones num qualquer transporte ou na paragem onde o esperamos. Quer dizer, eu costumo dançar um bocadinho, manter o ritmo mesmo sem tirar nenhum pé do chão, mas sei que é esquisito. Ninguém me olha como se fosse só mais um dia de rotina.

Dizemos tanto que “aquela música” está na banda sonora da nossa vida e que aquela outra devia ser o nosso videoclip. No imaginário do que sentimos em cada música, desenhamos o musical que seria aquele momento. É uma proximidade que de alguma forma nos repele.

É claro que, à partida, ninguém começa a cantar e a dançar sozinho no meio da rua só porque sim. E mesmo que aconteça, será sempre só um evento isolado e nunca um número a dois, três, ou um flash mob inteiro. Mas acho difícil que ainda ninguém tenha imaginado algo assim.

Podia estar a sentir tanto a música que as emoções controlam tudo. Curiosamente, alguém estava a filmar essa atuação incrível. Sem alguém a filmar fica bizarro, mas se alguém filmar é um musical. Não há vitória possível para quem faz questão de dizer que “odeia musicais”.

Não sei qual é a relação que cada uma dessas pessoas tem com a música. E não interessa assim tanto, porque gostos não se discutem. Mas debatem-se. Pode ser giro chegar a conclusões inesperadas que, sem esta discussão egocêntrica, não nasciam.

A minha conclusão principal não é juntar musicais e touradas. Prefiro concentrar-me só nas outras categorias. É que eu nunca ouvi ninguém dizer que odeia outro qualquer tipo de filmes. É comum “não gostar de terror”, mas ninguém chega ao ódio. Nem as comédias românticas mais brejeiras, que acabam por ser só conforto para a preguiça de escolher algo novo.

O que é que os musicais fazem às pessoas para causar este impacto todo? Será uma espécie de psicologia que, tal como no consultório, há quem evite para não lidar com emoções e outras sensibilidades? Não sei, mas esta crónica toda só me dá vontade de ver o La La Land outra vez.

Para quem gosta, e o que não faltou à minha volta foram pessoas dessas, é das melhores palhaçadas que há, mesmo sabendo que palhaçada nunca é dita em bom. É preciso imaginar um mundo em que “palhaçada” é uma coisa boa, tal como no mundo à parte em que me senti no meio do público.

Por muito que não seja a minha praia, e o que não falta no circo é areia, há uma atuação que eu adorava fazer. Ou escrever. Adorava ser o, quase sempre, velho do microfone que diz, em voz de circo, palavras de encorajamento para os artistas. Ou então está só a dizer ao público o que deve sentir no momento.

“Sensacional”, “maravilhoso” e “bravíssimo” foram repetidas ad eternum, mas nenhuma mexeu tanto comigo como “o espetáculo vai ter continuidade”. Continuidade amanhã? Hoje ainda? No futuro? Achei confuso e dito com linguagem antiga, tal como as atuações.

De facto, a linguagem estava em concordância com o espetáculo: datado. Mas lá está, eu não percebo nada de circo, pelo menos deste, que é em tendas e que já teve mais animais que um jardim zoológico. 

E por falar em animais, felizmente, poucos. Uns cavalos e uns camelos. Os camelos andaram à roda e a meio sentaram-se. Os cavalos também andaram à roda, não se sentaram, mas fizeram “cavalinhos”. Não, não é procriação, apenas andaram com os pés da frente no ar. Neste número, apenas um humano com os mamilos à mostra a montar um dos cavalos. Não entendi o número, nem a nudez.

Também apareceu um casal cujo truque era trocar de roupa muito rápido com um lençol à frente. Giro em 1998, mas é o mesmo que fazem os dançarinos da Taylor Swift, os anjos da Victoria Secret e os adolescentes na Bershka. Ainda assim, mais divertido que os palhaços que apitaram mais vezes que um árbitro gago no sopro.

Espaço também para as motas que aceleram naquela bola feita de ferro. Nostálgico, porque o cheiro que fica é o mesmo que sinto quando vou à aldeia: gasolina de mota antiga.

O momento alto da noite, literalmente, foram os trapezistas que estavam quase no rooftop da tenda. Número sempre giro feito de cambalhotas no ar, onde se balançam em cordas modernas e se largam até serem apanhados por um amigo.

Infelizmente para eles, falharam todas as tentativas possíveis. Talvez por cansaço e jet lag, já que havia mais nacionalidades no plantel que no aeroporto do Funchal. Felizmente para mim, a rede de segurança apanhou-os todos. E para mim que não percebo nada, a rede parecia pequena e mal colocada. Talvez nem tenham tido tempo de treinar.

Gosto de circo contemporâneo e o Cirque do Soleil deve ser inacreditável, mas este circo, da tenda, já não é para mim. Feitas as contas, todos saíram felizes. O público com um sorriso e uma noite bem passada em família. E eu com uma crónica para escrever.

“Pensar é estar doente dos olhos. Olho, e as coisas existem.” E é exatamente assim que eu trato a minha alimentação diária. Não consigo planear sem estar no supermercado a olhar para as opções, porque a minha fome é como o frio para alguns: psicológico. 

E também é difícil pensar em comida quando uma professora de Geografia disse para uma turma do 8º ano “vocês não têm fome, têm é vontade de comer. Fome é não ter nada para comer há 3 dias.” Parecendo que não, estava na idade de ter fome em cada minuto acordado, mas só queria mesmo o meu Bollycao.

Como de forma descompensada, sem noção de fome e de excesso. Como muito por obrigação nutricional, apesar de adorar o ato de comer. Neste caso, o destino é sempre magnifico, mas a viagem é deserto de chatice. Pensar no que jantar é desmotivante, cozinhar é divertido, comer é ótimo até quando é péssimo. Há sempre uma sobremesa à espreita de salvar uma refeição mal esgalhada.

É também por isso que gosto do método cantina na minha própria casa. Faço sempre doses familiares para todas as refeições que faço sozinho. Adoro marmitas por me darem o auto-controlo necessário de dosear o meu entusiasmo de comer o que está mesmo bom. E quando não está bom? A marmita também é boa para dosear o esforço, nunca é assim tanto, e prefiro ingerir que desperdiçar.

O dia que mais como é logo a seguir a compras de supermercado: jantar um sandes de queijo, uma lasanha e bolachas Oreo de chocolate branco parece casual, porque foi isso que os meus olhos viram e decoraram. A minha saliva mais pestanas que dentes.

Quanto mais comida tenho, mais como, menos quando escondo. Ou melhor, guardo. Há certas coisas, como as bolachas acima referidas ou, para ser temático, Ferrero Rocher, em que a minha fome só se finda com o fim do pacote. Eu sei, não é fome, mas também não é gula. É a procura incessante por prazer instantâneo e fugaz. Ainda assim dura mais que uma rapidinha.

Fico abesbílico com a minha falta de memória para o que quero comer esquecendo-me que está à minha frente, tapado por uma porta. E a frequência com que ocorre é preocupante. A última caixa de Ferreros tem o recorde de maior tempo de vida nas minhas mãos. Por lapso.

Os Ferreros são um de mil exemplos deste bingo da falta de equilibrio: emocional e mental, porque o físico já vem de origem. Na prática, os Ferreros duraram 9 dias. Parece impressionante até eu dizer que comi metade quando abri e metade quando me lembrei deles. E o tamanho é indiferente para a minha gula.

Sempre quis ser Fernando Pessoa, ou qualquer heterónimo, e ter um amor a quem escrever cartas ou ficar marcado na história. Não tenho palavras para me aproximar desse Olimpo da literatura, mas sinto-me realizado por me identificar e achar muito parecido de pensamento com o Alberto Caeiro. Isto sim, é “ter em mim todos os sonhos do mundo”.

Merda. Isto já é de outro "Fernando".