Ouvir música virou bitoque
Não interessa qual é o alimento que a música desempenha, o importante é que um bitoque só o é pelo conjunto e não vive isolado. Tal como a música. Seja no carro, a trabalhar ou a arrumar a casa. É companhia que serve e, de vez em quando, se sente.
Até num concerto, por muito que se esteja a olhar para o ecrã gigante, ou para o palco para quem não tem miopia, há momentos de lazer enquanto o concerto se torna pano de fundo. Mas nem sempre foi assim. E não é que o seja para mim. Às vezes, também é. Até estou a escrever isto enquanto “vejo” videoclips non-stop na televisão.
Não é que não se cante, não se sinta, não se viva a música na mesma enquanto fazemos outras coisas, mas quase se perde na confusão dos dias. Pelo menos na primeira vez que a ouvimos intencionalmente. Tal como eu e o último álbum dos Linkin Park.
Escrevo sem estar na audiência dos verdadeiros fãs, dos primeiros e dos que apareceram pelo caminho, mas gosto muito. Gosto ainda mais agora e acho que tudo se resume à forma como me foi apresentado.
Fui a uma Listening Party para ouvir o tal novo álbum, com a nova vocalista, quase sem querer. Foi um evento exclusivo, com a banda a escolher os fãs que mereciam ouvir o álbum antes de ser oficialmente lançado. Eu não fui escolhido, mas acabei lá.
Não tenho a melhor percepção nem sem contar por alto pessoas em espaços, mas éramos 50 mais um, eu, em frente a um pequeno palco onde só se via um ecrã que variava, minuto a minuto ad eternum, entre duas fotos. Ou a banda, ou o álbum.
Todos reunidos, em frente a um espaço sem vida, até as colunas começarem a tocar o álbum na íntegra, com o volume que merecia, como se fosse ao vivo. E tocou, música atrás de música, sem interrupção, a não ser um ou outro leve comentário quase unânime sobre felicidade e o prazer. Musical.
Foram 32 minutos de música sem distrações (só uns pequenos acepipes a um braço de distância). E quando acabou, todos quiseram repetir a experiência que seria diferente. A energia de estar só a ouvir música, só a sentir tudo o que ela carrega nas letras que se conheciam pela primeira vez, não foi única, mas foi como se nunca me lembrasse dela.
A última vez que a senti foi a 10 de março de 2017 com o primeiro álbum do Salvador Sobral, dois meses antes de se tornar no rei da Eurovisão. Recebi o álbum de presente, cheguei a casa, coloquei o CD na aparelhagem, abri o booklet e ouvi cada música na página certa. Acho que ouvi o álbum 3x seguidas por ter gostado tanto e querer começar a aprender as letras que hoje canto acappella.
Talvez também porque, tal como agora, já me tinha esquecido do prazer da música como algo que não precisa de mais nada. Tal como faço em concertos onde vou ouvir e sentir, guardando apenas dois minutos para um curto vídeo e foto de futuras recordações.
Antes de 2017, não me lembro quando tinha sido a última vez que tinha feito, mas fiz muito. No quarto, com a música alta para não me ouvir cantar ainda mais alto as músicas que já sabia: dos videoclips às discografias de artistas que “sacava” mesmo quando mal conhecia.
Seja como e onde for, sentir um álbum inteiro pela primeira vez é música para os meus ouvidos.