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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Julho e agosto são uma espécie de dezembro. As agendas ficam frenéticas, há planos a mais, tempo a menos, e nunca a gestão do prazer próprio se torna tão complicada. Talvez a única diferença seja climatérica. Mas ao ritmo do aquecimento global, não devemos estar assim tão longe de mais uma semelhança.

Em dezembro, quem manda é o natal, que até já começa em novembro. Presentes para demasiadas pessoas, família, colegas, ex-colegas, ex-famílias, paixões e amantes. O mesmo com jantares, onde toda a gente se lembra de fazer reuniões nostálgicas, desde o jantar de natal da empresa até ao jantar de natal com amigos da creche, da faculdade, do secundário. Depende quando é que o leitor abandonou a escola.

Bem, que desvio. Isto não é sobre o natal, mas depois mete-se o verão e estamos quase lá. Voltemos ao calor, que falar de natal deu-me arrepios. Na pele e na carteira.

Em julho, tudo abranda. Em agosto pára. De crónicas a podcasts, até estreias de novos programas de televisão e filmes no cinema. Até o futebol, que volta em agosto, só merece a atenção das massas em setembro. Não há agenda para o que cabe melhor fora da praia.

Há uma sensação de tempo diferente. Os dias são grandes e querem-se cheios de momentos, eventos e convívios. Com ou sem pessoas, até porque já tive grandes momentos de convívio com o meu ego e acaba sempre a ser um momento marcante.

Enquanto o inverno rebenta com estreias de filmes e séries, em que todos trabalham para o entretenimento dos outros tantos, o verão rebenta em concertos, festivais, arraiais e outros bailaricos. Vamos do excesso do que ver em casa para o excesso do que fazer fora dela.

Eu digo excesso. Há quem diga escassez. Há quem queira só que sejam diferentes. Agradar não é uma coisa que importa aqui e agora, só interessa quantidade. Em resumo, o verão deixa-nos todos concentrados num pequeno espaço e o verão liberta-nos. Andamos soltos e sem fronteiras.

Combinar um jantar de aniversário em novembro tem 99% de garantias e 1% de imprevistos, sendo sempre o mesmo: é alguém que não vai. O mesmo jantar, ou almoço, ou sunset, ou qualquer hora do dia porque na verdade é indiferente, tem 1% de certezas e 99% de imprevistos. A única certeza é que, quem convida, quer mesmo que aconteça.

Não me chego a interessar por todos os negócios em que a frase “depois mete-se o verão” é citada vezes sem conta para atrasar obras, adiar parcerias, fechar negócios. Até recrutamentos, ou grandes mudanças na vida. Mas a verdade é que vivemos com essa mensagem implantada na testa.

É um “carpe diem” mais português. “Depois mete-se o verão” é um estado de espírito para a falta de compromisso com convites. É legítimo não ir porque está tão bom tempo quanto a liberdade que eu quero ter no meu dia.

No inverno, ter um jantar é uma boa desculpa (ou sacrifício) para sair de casa só um bocadinho. No verão, o mesmo jantar, é um plano z à espera de 22 outros falhados.

Um dia disse que não queria mais amigos, que já tinha tempo a menos para o quanto gosto de cada um. Hoje, vejo ao longe a ignorância gritante dessa minha frase. Acho que acreditava nela. Pelo menos até ser atropelado pelo amor de uma amizade nova.

As amizades não se procuram, acontecem. E mesmo que se procurem, são muito mais aleatórias que premeditadas. É uma espécie de engate inesperado, o oposto do que se quer numa relação amorosa.

Já mudei várias vezes de trabalho, mas nunca mudei para fazer amigos, fui fazendo pelo caminho e hoje não me imagino sem cada um deles. Também já fiquei tempo a mais em alguns sítios por não me querer ver longe dessas amizades. É o momento em que se troca de trabalho que se descobre do que é feita esta amizade: um feliz acaso laboral ou um abraço para a vida toda.

É este um dos motivos que me faz gostar tanto de trabalhar num regime híbrido, um bocadinho no escritório, um bocadinho em casa. É claro que também se fazem amizades em trabalhos 100% remotos, amizades que se desenvolvem por mensagem e videochamada. Ou pela força do ódio comum a um chefe.

Deixar um trabalho é tanto mais difícil quanto se goste das pessoas que lá estão connosco. Falo por mim, claro, que tenho o privilégio de trabalhar no que gosto e não de ser pressionado por outros motivos para procurar coisas novas. Ainda assim, não me canso de procurar. Gosto do estímulo da novidade. De não saber de onde vem a próxima amizade.

Ainda não fiz uma amizade puramente remota. Ou seja, uma amizade que se sinta como tal, exclusivamente através de um ecrã. Na vida adulta ainda não, enquanto adolescente fiz amizades no Perú. Acho eu. Se calhar, era um homem com más intenções. Nunca saberemos.

A amizade nasce espontânea até se esquecer de quando começou. Sei que começaram naquele trabalho, mas não o momento em que descobri que tinha mais alguém para guardar num coração já apertado pela saudade.

Tenho apenas uma amizade com data marcada. Uma colega, hoje amiga, com quem trabalhei vários meses sem nunca nos vermos e, na primeira conversa frente a frente, trabalhar foi raridade num dia que parecia curto para tanta intimidade. Não sei o que seria de nós se ficássemos sempre remotos, mas já não imagino a minha vida sem qualquer uma destas heranças profissionais.

Trabalhar pode nem sempre ser um prazer, mas fazer e ter amizades no trabalho é motivação suficiente para me fazer ir. E, para mim, que estou habituado a sair e a trazer para a minha vida o amor que não cabe num escritório, foi muito difícil ver sair quem quero mais perto, mais tempo. Para sempre.

Tenho 100% de certeza que não consigo ter tanto tempo quanto queria para estar com quem mais gosto. E tenho 100% de certeza que não querer mais amizades é 100% errado.

Já muito se escreveu sobre o tema, tanto que já nem faz sentido, mas só agora concluí o mais óbvio. Acho que o novo acordo ortográfico é o que melhor honra e caracteriza Portugal. Uns respeitem tudo, outros só algumas coisas, e outros rejeitam por completo. 

Eu escrevo pára com acento porque sem não faz sentido, é confuso e estúpido. Escrevo ótimo sem p porque não me chateia assim tanto. Para mim, o novo acordo ortográfico é como um semáforo, às vezes acelero a fundo, noutras travo. Tenho mil e um exemplos, mas a única palavra que me interessa é o rabo, na forma mais curta e grossa: cú.

Cú é curto, é rápido, é intenso, é bom, semântica e fisicamente. Cu é desinteressado, tímido, flácido e sem confiança. E, apesar de o meu ser cu, faço questão de colocar o acento no cú que não precisa de assento para ficar firme. Curiosamente, há quem prefira enviar o acordo no cu de quem o fez.

O acordo que gera desacordo é o perfeito retrato da escrita dos portugueses. Foi a forma mais democrática para acabar com os nazis da ortografia. Eu sei que é mais comum dizer “nazi da gramática”, mas está errado. Gralhas e palavras mal escritas são ortografia, gramática é outra coisa. Merda, se calhar sou o Hitler disto.

Hoje, toda a gente escreve a toda a hora em todo o lado. Antes do acordo, existiam dois tipos de pessoas: as que escrevem sem erros e as criativas, que inventam palavras e conjugações verbais. A partir do acordo, muitos mais começaram a escrever mal.

Agora, existem 4 tipos de pessoas: os que escrevem sem erros no novo acordo, os que escrevem sem erros no antigo, os que misturam os dois, e os criativos que escrevem mal em todos. O novo acordo ortográfico foi a democratização perfeita do espírito literário, outrora snobe e elitista.

Antes do acordo, eram os snobes da literatura, da ortografia, da gramática e os escritores que desprezavam todos aqueles que pouco se importam com erros, desde que a mensagem se entenda. O conteúdo é mais interessante que a forma, certo?

Hoje, todos estes snobes vivem no seu próprio acordo e desceram das prateleiras para errar triunfalmente. Chega até a ser bonito. É só mais uma coisa pouco coerente deste lindo país à beira-mar plantado. Ou será beira mar? Não se leva pau no meio.

Escrever este texto talvez tenha sido um desperdício de tempo. Tal como continuar a falar do acordo ortográfico. Ou de erros. Mais tarde ou mais cedo, há sempre uma gralha que escapa. Quase sempre quando menos esperamos. Tal como tentar deixar cair uma bufa que na realidade é um peido.

Uma metáfora de merda para fechar a crónica sobre um assunto que já cheira mal.