A arte subtil de procrastinar
É quase meia-noite de domingo e faltam menos de 8 horas para esta crónica ficar publicada. Crónica que começa agora a ser escrita apesar de ter o computador ligado, à minha frente, há mais de 2 horas. Se hoje fosse ontem, tinha mais uma hora. Mais uma hora para procrastinar, claro.
Procrastinar é só uma palavra pomposa para dizer preguiça. Enquanto a preguiça fez o ensino secundário à rasquinha, a procrastinação está a meio do mestrado. E só está a meio por razões óbvias. Procrastinação de quem o faz.
O título desta crónica podia ser facilmente o título para um best-seller, tal como o outro com um nome parecido. Se vou escrever esse livro? Claro que não. Isto é o mais longe que a minha procrastinação aguenta. Um único texto sobre o tema.
Por outro lado, escrever e ler tantas vezes a palavra procrastinação é anti-procrastinação. Por ser uma palavra difícil de dizer e com um enorme risco de ficar mal escrita. Para todos os efeitos, e a partir de agora, vou alternar com preguiça. O resultado é o mesmo.
Podia ter escrito este texto noutro dia da semana? Sim, mas tenho uma espécie de atração pelo abismo de fazer coisas quando o tempo escasseia. Se tivesse escrito à terça, ou à quinta, já podia estar a dormir. Poucas coisas me conseguem roubar horas de sono. Ter pau grosso é uma delas.
Calma. É só um significado alternativo de preguiça. Vi no dicionário. Queria só que, tal como eu, aprendessem uma coisa hoje. Dizem que é saudável. De nada.
Por falar nos que as pessoas dizem, já li frases inspiradoras sobre como é melhor entregar uma tarefa a um preguiçoso do que a outra pessoa. Dizem que o preguiçoso vai encontrar a forma mais rápida e fácil para resolver um problema. Tenho as minhas dúvidas. Parte de mim acredita que sim, em muitos casos, mas noutros, o preguiçoso é só quem encontra uma solução. Se é boa ou má, de curta ou longa duração, ninguém sabe. Mas é uma solução.
Tal como esta crónica. Se é boa ou má, não sei. Nunca gostei de fazer auto-avaliações. Deve ser um trauma de estudante. Até porque pedir aos alunos para fazerem a auto-avaliação quando a nota já foi calculada pelo resultado de testes e exames parece-me preguiça dos professores. Ou será um teste ao bom senso e consciência dos alunos? Não sei. E também já é tarde para pesquisar sobre o tema.
Estou sentado no sofá. A escrever enquanto vejo videoclips no MTV Hits. É o meu ritual de escrita. Tenho calor, mas para quê trocar de roupa quando a seguir vou vestir o pijama? Podia vesti-lo já, mas depois tinha de vir escrever de novo. Ser preguiçoso parece-me sensato. Contudo, escrever esta crónica é exatamente o oposto.
Escrever sobre procrastinar é deixar de o fazer. E se eu parei de procrastinar, é uma boa oportunidade para ti, que estás a ler, deixares de procrastinar também. Sim, porque estar a ler isto só pode ser procrastinação de outra tarefa qualquer. Ou não?