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Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Crónicas no Bar da Praia

Às segundas, nem sempre sobre bares ou praias.

Não sou o típico humano que adora ofertas e coisas grátis. A maioria desses presentes não tem grande valor nem utilidade para a minha vida e, rejeitando-os, sinto-me a oferecer um presente ao ambiente, por recusar esse leve consumismo. Já tenho a gaveta cheia de amostras, para dar e vender, mas aceito sempre uma oferta quando quem “sofre” é o meu corpo.

Voltei ao ginásio onde treinei como nunca antes na minha vida adulta. E como presente de boas-vindas, há ofertas para receber, fazer ou ignorar. À partida, sinto-me já desinteressado quando me falam em “plano de treino”, mas aceitei a consulta de nutrição e a massagem. Sei que tenho comportamentos desviantes dentro da cozinha e nunca neguei a oportunidade de me esfregarem o corpo. Mesmo que não seja em bom.

A consulta era às 9h e, como penso mais no presente que no futuro, disse que sim, “claro que estou disponível” e fui. Desse lado, podem pensar que seria uma boa oportunidade para treinar, visto que me tinha comprometido a ir e fazia um 2 em 1. Mas como sou meio infiel a mim próprio, achei que ser pontual já era desafio suficiente.

Na consulta, descobri o peso que sempre me acompanhou, e que não me alimento assim tão bem. Mas o que é “comer bem”? Achei que não interessava e aguardei que a simpática nutricionista me desse o plano de “um dia normal” e uma ou outra receita nova. Nada disso, era só uma amostra. Como aqueles cremes de mãos que só dão para espalhar na esquerda. Valeu pela simpatia, mas era escusado mostrar as minhas unhas a uma pessoa que não me volta a apanhar nestas balanças de pé descalço.

Por falar em unhas, fiquei de meias na massagem. E de boxers. Tudo a uma hora imprópria para tentar enfiar um treino: a hora de almoço. Mais um 2 em 1 que deixei passar. Sei que há muito boa gente que o faz, mas são meio malucos, aos meus olhos. Malucos e corajosos, e por isso merecem um aplauso mental porque normalmente tenho um gelado na mão a essa hora.

Da primeira vez que estive neste ginásio, também tinha recebido uma massagem grátis. Suspeito sempre quando a oferta se resume a uma só palavra. “Massagem”, mas quanto tempo, e onde, qual a roupa que devo despir? Nessa primeira fiquei de calças e o desconforto maior até foi a própria massagem.

Esta foi diferente, foi boa, ainda que eu não tenha controlo emocional para poder desfrutar na plenitude daqueles 27 minutos em que me besuntam de creme e me apertam aqui e ali.

Com a cabeça naquele buraquinho, “que ajuda a relaxar”, percebi que todas as minhas respostas saiam como se eu fosse “sopinha de massa”. Até sou um bocadinho, mas não tanto. É difícil relaxar quando estou a tentar conter o riso das minhas próprias palavras. Logo agora que já estou mentalmente treinado para aquela “música ambiente” de floresta onde eu nunca estive. E até duvido que existam. Pelo menos com aqueles sons.

Por fim, falta-me o “plano de treino” nas máquinas e no ginásio propriamente dito. É a única oferta que vou deixar passar, porque não quero alimentar mais falsas esperanças. Só quero nadar. Respiro melhor debaixo de água que em cima de uma bicicleta eliptica.

O título é um cliché grande para quem escreve, mas aplica-se a tudo na vida. Decidir os almoços e jantares da semana também é, do seu jeito, uma folha em branco. Não faltam receitas e possibilidades, o difícil é escolher.

Ou seja, eu acho que o problema nunca é a “folha em branco”, mas sim ter sempre a folha demasiado cheia. Nem um bebé que acaba de nascer é “uma folha em branco”. Somos todos folhas riscadas. Umas mais que outras. Cheias de pensamentos ou opções alimentares.

Na prática, uma folha em branco é assustador. Mas não é o ponto inicial de nada. É o final apocalíptico. Por exemplo, eu hoje ainda não tinha decidido o tema desta crónica, mas tinha ideias perdidas. A folha estava em branco porque nenhuma delas era boa.

O mesmo acontece na cozinha. Pode existir comida no frigorifico, no congelador e temperos na despensa. Pode até ser dia de ir às compras. A folha está cheia de opções para deixar ao lume, mas o que é que vai mesmo entrar no tacho? Afinal, só nos apetece uma torrada com manteiga, e amanhã logo se vê. A folha em branco não é só o rolo de cozinha a chegar ao fim, é a falta de decisão sobre o que queremos fazer.

Ver a folha em branco é quase o mesmo que não fazer nada. Há quem fale dessa arte, da qual sou grande fã, mas se quisermos ser literais, é impossível. “Não fazer nada” é só uma expressão engraçada para descansar de uma chatice no futuro. Seja uma reunião de trabalho ou um fogão avariado.

Portanto, sempre que alguém diz “não estou a fazer nada”, está na prática a fazer alguma coisa. Fugazes são os momentos em que, a olhar para o horizonte, nos perdemos inconscientemente num pensamento até alguém nos chamar de volta à terra com um “estavas a olhar para onde?”, “para ontem”.

De facto, mesmo sem sabermos a origem desse pensamento, o nosso cérebro estava a fazer alguma coisa. Dizer “não estou a fazer nada” é o mesmo que dizer “estou morto”, mas os mortos não falam. Ainda.

Até dormir é fazer muito. Não ativamente, mas o corpo e o cérebro andam todos malucos a fazer as coisas que não têm tempo de regenerar de dia. E também a inventar os sonhos que me ocupam boa parte das noites. Se estamos vivos, estamos sempre a fazer alguma coisa, e isto, é irrefutável.

“Ter a folha em branco” e “não fazer nada” são uma forma quase poética de enganar quem nos questiona. O que na verdade queremos dizer, ou esconder, é que “temos a folha em branco” porque não temos capacidade para a encher de coisas interessantes. Significa que até os riscos que vêm de origem só existem para dar trabalho às borrachas.

O mesmo para quem diz “não estou a fazer nada”. Na verdade, mais vale dizer “não estou a fazer nada de jeito”, e com isso, eu vivo bem.

Há música que nos entra na vida de forma tão intensa que ela própria vive uma vida dentro da nossa. O pior e o melhor de encontrar a música que nos faz quebrar é a surpresa do que nos faz sentir. Seja pela rádio, ou qualquer outro meio, há músicas que não precisam de 3 minutos para nos agarrar e atormentar por um período temporal do qual não temos controlo.

Dias, meses, anos. A música não decide quando entrar, mas sabe quando sair. E voltar. E hoje, a roleta russa emocional chegou-me na rádio que não me deixa marginal ao que sinto. Ou sentia. E senti. Sem ti. Porque são os corações partidos de quem canta, a inspiração para partir e tentar colar os de quem ouve. E foi há tanto tempo que esta música me levou, rotineiramente, a lágrimas que ainda não queria largar.

A viver o início do fim de um qualquer amor, fazia um pequeno percurso de carro para o trabalho. Pontual como já não sou, saía de casa à mesma hora, na mesma rádio, com músicas diferentes, até que uma delas tocou-me mais do que eu queria sentir. Falava sobre a vontade de dar beijos e do amor que se troca na vontade e na saudade que um só beijo pode guardar.

Ouvi a primeira vez e senti por dentro palavras que ainda não tinha contado a mim próprio. A música era a história que eu ia deixar de ter. Ouvi a segunda e cantei o refrão. Uma semana depois, fora dessa rotina, a música ecoava por mim com o desespero de quem não quer largar aquilo que já perdeu. Foram semanas a mais da mesma música que, sem querer, me apanhava sempre desprevenido. A música começou a ser pontual e a entrar no meu caminho. Não tinha coragem para não a ouvir, para não chorar só mais um bocadinho. Até que, pouco a pouco, ela foi saindo do meu horário.

A rádio é que me oferecia aquela leve tortura que eu até queria sentir como se me ajudasse de alguma forma. Não ajudava. E a rádio sabia disso porque a tirou do meu horário e começou a colocá-la a horas diferentes. O mal estava feito porque eu já a tinha em CD. A magia da rádio é poder surpreender-nos com a música que nos anima, mas também com a música que nos destrói. E mesmo quando nos quer proteger, apanha-nos distraídos.

A música saiu das minhas horas para entrar no meu dia, por escolha minha, que sabia as letras de todas as palavras que a compunham. A voz é doce, a música também, mas o meu sentimento nunca fez pandã. Uma música de amor, alegre e serena, era o que eu queria para me desmoronar.

Ouvi até à exaustão, cantei até perder a última lágrima, e foi essa a minha salvação. De tanto cantar, tornou-se, ela própria, rotina. E a rotina ocupa-nos pouco pensamento. Tal como conduzimos sem pensar em cada gesto, há músicas que cantamos sem sentir o que as palavras trazem. É um ato de inconsciência alegre que nos deixa dormentes de todos os sentimentos que cabem na música. Porque não as podemos sentir tanto, a todas.

Entre esse ano e hoje, foram poucas as vezes que a ouvi. Não a deixei de cantar, mas o sentimento foi se transformando. Da lágrima à nostalgia, da saudade ao amor. Até que hoje ela me surpreende, na mesma rádio, à mesma hora, e liberta-se uma alegria de quem olha carinhosamente, com distância, para todo o amor que ela representa. A música dos beijos que perdi, lembra hoje os beijos que dei. A canção continua alegre e, hoje, eu também prefiro deixá-la tocar nas memórias mais felizes.

06 Ago, 2023

Sentado na sanita

Não queria escrever xixi no título e foi por um triz. Podia dizer “urina”, mas fiz análises há pouco tempo e está tudo bem com ela. É engraçado como “recolher uma amostra” é a forma elegante de dizer “mijar para um copo”. Elegante pelas palavras, não pelo ato em si. Ainda que tenha a certeza que alguém, algures no mundo, fique extremamente excitado por ver pessoas a “recolher amostras”. O mundo é giro e a crónica de hoje também, espero eu.

Eu faço xixi sentado e, naturalmente, tive tempo para pensar nisto já que não tinha outras preocupações associadas, como manter o equilíbrio ou a mira no alvo certo. Faço xixi sentado porque sou preguiçoso e higiénico. Não é uma questão de falta de pontaria, é simplesmente porque, sentado, é praticamente impossível “molhar” o tampo da sanita. Quem diz o tampo, diz os arredores. Já vi casas de banho com mais “água” que algumas barragens em agosto.

Sou preguiçoso porque se sujar tenho de limpar. E também porque prefiro manter as minhas limpezas semanais. Não gosto de horas extraordinárias, muito menos na casa de banho.

Habitualmente, a casa de banho de casa serve mais que uma pessoa. Quantos mais forem os homens a fazer xixi sentados, maior a probabilidade da casa de banho se aguentar mais tempo limpa. E não é uma questão de pontaria ou falta de higiene, mas também pode ser. É uma questão muito mais simples: errar é humano, e quem nunca espirrou enquanto “mijava de pé” que atire o primeiro penico. De preferência, vazio.

Isto tudo se aplica apenas ao xixi doméstico. Fora de casa, a história é outra. E não, por “fora de casa” não vou dizer que ando por aí a levantar a perna em qualquer esquina. Só mesmo em apertos excepcionais, porque mais vale um árvore regada que umas calças molhadas longe de casa. Fora de casa, faço sempre de pé. Não sou fundamentalista em nada, muito menos nisto.

A partir daqui, eu já estou arrependido de estar a escrever sobre este tema. Parece-me tudo muito gráfico, muito real, e já estou cheio de vontade de ir à casa de banho. Ainda bem que escrevo as crónicas em casa e não, literalmente, no bar da praia.

Para não chocar mais ninguém, e como medalha de mérito a quem chegou até aqui, falta só falar do xixi fora de casa que não é ao ar livre. Portanto, bares da praia, cafés, restaurantes, centro comerciais e afins. Nestes lugares há sempre duas opções e em nenhuma delas envolve estar, literalmente, sentado. Estar de cócoras não conta.

Aqui, o urinol é o destino provável do xixi que me enche a bexiga. E ninguém me tira uma ideia da cabeça, nem vou procurar a verdade: para mim, o urinol foi inventado por alguém com pouca pontaria que espirrou durante o ato. Claramente precisava de um alvo maior.

PS. Esta crónica não é inspirada em factos reais. Quer dizer, até é, menos aquela parte do espirro. Isso foi fruto da imaginação do autor que, sem querer, acaba de criar um novo trauma para a sua vida urinária.